A brincar aos pobres e aos ricos numa cantina de Carcavelos

Imagens do Facebook do vereador João Ferreira (CDU/CML), que há dias alertou para a falta de qualidade das refeições nas escolas públicas de Lisboa 


O caso - noticiado pela Lusa - de um colégio dos Salesianos, em Carcavelos, que serve refeições "para ricos" aos seus alunos e refeições "para pobres" aos alunos da escola pública, daria para um bom debate sobre educação, mas o que houve foi apenas um festival de slogans e equívocos.

Há, é certo, um pecado original da parte do colégio: se considera que o contrato com o Estado, nomeadamente no que respeita às refeições, não lhe permite fornecer serviços de acordo com o seus melhores princípios católicos, então deve simplesmente abdicar desse contrato e, logo, desse lucro.

Mas o foco não deve ser colocado no colégio. Enquanto cidadão republicano e laico, pouco me importa a consciência dos praticantes de uma igreja, muito menos quando envolvidos em atividades comerciais.

O tema de discussão, especialmente para quem considera que a escola pública é um dos maiores ativos da democracia e o mais poderoso elevador social, é o papel do Estado em toda esta história.

Começando por perceber o que leva o Estado a colocar turmas públicas numa escola propriedade de uma igreja, ainda por cima numa zona em que instalações não faltam.

Mas o que a notícia revelou, de facto, para a generalidade das pessoas é a indignidade com que o Estado trata os alunos na escola pública. Porque as refeições "para pobre" que se servem nos Salesianos de Carcavelos obedecem aos critérios utilizados em todas as escolas. Sim, com o financiamento que o Estado fornece, aquelas são as refeições possíveis.

O Estado, e não a Igreja, deve estar no centro do debate. Não foi o que aconteceu. Pelos media e pelas redes sociais escorreu a ladaínha banal e mentirosa de culpar quem menos responsabilidade tem, numa lógica de mata-frades sem nexo.

Para que tudo acabe "em bem" só falta, aliás, que o Estado invente uma solução para pôr os meninos pobres de Carcavelos a comer "comida de rico", enquanto o resto do país fica a olhar para o fundo da malga.

Fernando Gil


Acontece-me com alguma frequência, para não dizer sempre: procurar algo, com insistência, persistência. 
Algo que não me faz falta alguma, procurar apenas pelo prazer de procurar. Pode ser, apenas para dar exemplos reais e recentes, um livro, um vinho, um cardigan, uma cadeira. Houve o tempo dos discos, até ao dia em que descobri que já nem aquele carro aceitava discos.

Uma das recentes fixações, na verdade com alguns anos, era um livro de Fernando Gil. Não exatamente um livro concreto, mas um livro, de um pequeno conjunto da sua obra, que saberia identificar quando encontrasse.

Fernando Gil foi o filósofo português mais influente da segunda metade do século XX e que, como costume acontecer neste país, caiu em absoluto esquecimento após a sua morte, há umas duas décadas.

Acontece que, li nos jornais desta semana, a INCM vai reeditar as obras de Fernando Gil. Vou finalmente poder comprar um livro dele, mas vou perder o prazer de procurar os seus livros. O que vale é que tenho uma lista, mental e não só, de tantas outras coisas para procurar. Chegue-me a vida.


Cartaz de um colóquio na Gulbenkian, durante o qual será lançado o primeiro livro da INCM


Jürgen Habermas
[1929-2026]

Um dos mais lúcidos pensadores contemporâneos, como prova um dos seus últimos textos (El País, novembro de 2025).

Uma das muitas coisas que devo à FCSH do final dos anos 1980 foi dar-me a conhecer Habermas. Esta ideia fundadora do seu pensamento - de crise da esfera pública - está hoje, meio século depois, ainda mais atual.






The lyrics, not just the music



É bem possível que Ethan Hawke ganhe o Oscar para melhor ator. Na verdade, Blue Moon foi feito, literalmente, para ele. Dos 100 minutos que dura o filme, ele aparece em 99, melhor, ele é protagonista em 99, ora seja em monólogos, ora em diálogos centrados nele. Esmagador, de ficar sem fôlego, até porque vários são os momentos em que é impossível ficar indiferente às sucessivas máscaras com que dissimula o desespero.

Mas o filme merecia mesmo era o Oscar para melhor argumento.

É um filme sobre a escrita de canções, sobre as letras. Não confundir com poemas, isso é outra coisa.

Ao contrário do que possa parecer, a música pop - numa acepção muito lata, que engloba o american songbook, retratado neste filme - vive tanta da música como das letras.

A pop, aqueles 3-4 minutos de cada canção, é um concentrado de emoções, tanto dirigidas ao ouvido como a zonas menos visíveis, talvez o coração, talvez a alma.

A música é, não há volta a dar, o primeiro veículo que traz até nós as canções. Mas nenhuma fica, nenhuma cola, se não tiver aquela letra, com umas palavras mágicas, uns versos que fazem parar para ouviu e reouvir, umas rimas que nos desafiam a cantar.

Uma canção só é um sucesso, ou só anda connosco o dia todo, se tiver uma letra que desencadeie o enamoramento. Até quando cantarolamos, porque não sabemos a letra, é à volta da letra que andamos.

Este filme é sobre isso. Sobre o poder da palavra, mesmo num território, a música, em que supostamente ela poderia estar ausente.

O argumento, baseado em cartas de Lorenz Hart, capta maravilhosamente esse papel das letras, através de uma quase alucinante sucessão de exemplos.

Blue Moon é, bem vistas as coisas, é um filme sobre a arte de contar histórias. Um filme para apaixonados pela escrita, pelo prazer da língua. E, claro, não apenas na música.

 


Um bom malandro, que gostava de ver as pessoas felizes.
Do tempo dos jornais.
Mário Zambujal, 1936-2026

(a foto é de 2022, na Estrada de Benfica)

Dança magna - os Divine Comedy na Reitoria


Ainda estávamos naquela fase de nos medirmos uns aos outros – será que eles estão em forma? será que eles vão ouvir-nos com atenção? – quando Neil Hannon segura o microfone: eh pá, noutros sítios onde temos tocado, há sempre uma zona de pé, para a malta poder dançar, mas aqui vocês estão todos refastelados, olhem que ainda vão adormecer.


Escusado será dizer que ninguém dormiu, que na canção seguinte já muita gente dançava e que, até ao final, várias vezes a Aula Magna se levantou para abanar ou simplesmente ondular.


O que Neil não sabia é que tudo aquilo era performance nossa, homenagem às canções deles. Quem mais dançou foram os nossos netos, ironicamente sentados nas primeiras filas, sim, nas cadeiras doutorais. Imagine-se: comprar os bilhetes mais caros, apenas para não usar o privilégio da poltrona. Imagino que ele não tenha percebido este nosso humor involuntário e sem jeito de ir a lado algum, fossemos nós personagens das canções deles.


O pretexto era mostrar-nos o seu último disco – Rainy Sunday Afternoon -, uma boa coleção de canções acima da média, mas obviamente foram os hits que mais animaram a sala. Só faltou mesmo To The Rescue e o Che que se deita no lugar de Marilyn.


Neil Hannon está excelente, a fazer o que quer, seja com a voz, seja com a teatralidade obrigatória daquelas canções. A banda está à altura dos acontecimentos e quase não se nota a artificialidade de algumas soluções – há instrumentos e coros que de alguma forma tinham de ser resolvidos e foram.


Uma energia extraordinária, que nem o habitual som low cost dos concertos em Portugal conseguiu atrapalhar.


Os dias de Seguro



Eleito pelo povo contra os media, António José Seguro tem pela frente o maior dos desafios: promover diálogo e consensos, num mundo apaixonado pela gritaria e pelo fait-divers disruptivo. 


O mundo em guerra e à deriva e o país adiado, afogado, a cair aos bocados exigem - há muito que o País espera - respostas estruturais e com um consenso político e social mínimo, que seja garantia da sua continuidade.


Ao invés, o País está refém entre um Governo que tem como programa a sua mera sobrevivência e o espectro de uma radicalização sem projeto que não seja desmantelar o estado social que ainda persiste e pôr portugueses contra portugueses.


Nesse país politicamente tripartido, não compete ao Presidente ser apenas garante constitucional abstrato, mas antes o verdadeiro intérprete dos princípios fundadores do estado democrático e, dessa forma, garantir a sua concretização e sobrevivência.


Isso exigirá coragem e, acima de tudo, o risco de pensar e agir à margem do barulho das luzes e da concepção da política como mera gestão da vidinha.


Na relação com o Povo, não podemos continuar na festa dos afectos, pura aspirina em doses suaves para problemas profundos que nunca se resolvem.


Há o Interior, que em boa parte do País se estende até ao litoral, que está mais, muito mais, abandonado do que (a)parece nas televisões. E há, em todo o País, a expectativa legítima, e agora renovada, de que é possível, tem que ser possível, fazer mais pela vida das pessoas.


Colocar essa expectativa do Povo no coração do Poder e exigir deste as respostas, eis um belo Programa. Muitas vezes anunciado, tantas vezes frustrado. Pelo seu trajeto político e pelas condições em que foi eleito é mais que razoável esperar que com Seguro não seja assim.

Marcelo, 14 valores


Antes de se dar a conhecer ao país pela televisão, depois do Expresso e do Semanário e antes do PSD, Marcelo fez semanalmente um Exame semanal, na TSF e transcrito pelo DN, no qual dava notas aos políticos, na velha escala de 0 a 20.

No final da década de Belém, justo será submetê-lo à mesma escala: um 14, a nota que dispensa a ida à Oral, mas que decepciona, quando aplicada a um aluno de 18.

Marcelo, na verdade, falhou em grande linha nos dois tabuleiros em que joga um Presidente: o constitucional e o simbólico.

Teve uma interpretação demasiado lata da Constituição, que o levou a ser mais fator de instabilidade do que garantia do bom funcionamento das instituições, sendo disso exemplos a histeria com que rodeou os debates orçamentais e a ligeireza com que deitou fora maiorias parlamentares. Nos seus mandatos, não houve um passo, sequer, para gerar consensos, quanto mais pactos de regime.

O populismo afetivo com que confessadamente se propôs combater o populismo extremista não foi além das selfies. Nunca conseguiu motivar a sociedade civil em torno de qualquer causa e, em algumas nas quais se meteu, o resultado terá sido o oposto do pretendido. Está por analisar com distanciamento o seu papel nos incêndios de 2017, em que claramente contribuiu mais para a análise e resolução superficial dos problemas, do que para as reformas estruturais que se exigiam.

Os tempos foram extremamente adversos, mas de alguém tremendamente experiente na política, no Direito e na gestão do espaço público, esperava-se mais. 

O retrato que o honrará em Belém, de Vhils, regista um sorriso estilhaçado por notícias de jornais, num terrível simbolismo. As coisas como elas são, evidentemente.


Quem será a Ângela Silva do novo Presidente?



O Presidente da República tem muitas formas de falar ao País. Há os discursos e mensagens oficiais e a aprovação/rejeição de leis - quando se trata de comunicação formal com o país todo. Há a palavra de maior ou menor circunstância, quando se dispõe a falar a um microfone que se atravessa no caminho. E há a sinalização de estados de alma, mais ou menos institucionais, comunicados através de jornalistas cuidadosamente selecionados e dirigidos àquilo que agora se chama bolha e que antes se chamava corte.

Sempre assim foi. Soares e Cavaco foram exímios nesse tipo de comunicação, com Alfredo Barroso e Fernando Lima, entre outros, a servirem frequentemente de correia de transmissão. E com jornalistas que, “todos” sabíamos, bebiam do fino e, portanto, se escreviam, era porque “o Presidente”, “o Palácio”, “Belém”, ou “a Casa Civil” tinham soprado.

Apesar de essa comunicação se dirigir primordialmente à tal bolha, um pequeno mundo político-mediático essencialmente lisboeta, o seu conteúdo é muitas vezes altamente relevante, pela quantidade e densidade de “recados” que comporta, ou seja, pelo que vai antecipando no jogo político, ou pelas válvulas de escape que se vão abrindo por essa via.

Marcelo foi evidentemente mega-hiper-ativo nessa frente. Igual a si próprio, foi permanentemente agente e comentador, tão excessivo do ponto de vista comunicacional, como no campo político-constitucional.

Nessa coreografia marcelense teve um papel muito especial a excelente jornalista Ângela Silva, que, no Expresso, tantas vezes a horas impróprias e em textos que nada devem à filigrana, nos foi relatando o que nem as paredes de Belém ouviam. Felizmente, o jornal deixou de ser semanário e é agora um perpétuo online, ou não haveria maneira de lá fazer encaixar a exuberância dos estados de alma presidenciais.

Ora António José Seguro é claramente de outra cepa. Ganhou contra os media, e parece estar em contraciclo com o espalhafato mediático generalizado, o que deixa indiciar que terá uma relação de outro tipo com os jornalistas e um modo mais institucional de se relacionar com o País.

Mas resistirá Seguro a divulgar os seus estados de alma políticos? A sinalizar aos outros agentes políticos o que pensa ou não de certos assuntos, sem se comprometer institucionalmente? Resistirá a essa magistratura de influência, que se traduz em conversas à porta fechada seguidas de notícias sem fonte? Resistirá Seguro a ter uma Ângela Silva?

𝗣𝗮𝘀𝘀𝗼𝘀 𝗖𝗼𝗲𝗹𝗵𝗼: "𝗡𝗮̃𝗼 𝗲𝘀𝘁𝗮𝗺𝗼𝘀 𝗯𝗲𝗺. 𝗜𝘀𝘁𝗼 𝗻𝗮̃𝗼 𝗽𝗼𝗱𝗲 𝗰𝗼𝗻𝘁𝗶𝗻𝘂𝗮𝗿 𝗮𝘀𝘀𝗶𝗺”

Uma semana depois das Presidenciais, Pedro Passos Coelho decidiu estragar as previsões para 2026 dos comentadores astrólogos. Só lhe faltou concluir: contem comigo. Prefere, certamente, que a onda cresça.


Numa intervenção e em declarações aos jornalistas, às quais a Lusa dedicou uns inusitados, mas justificados, 8 mil caracteres, o governo do PSD foi o principal alvo, mas houve afirmações qb que indiciam outros voos.


Registo de algumas afirmações de PPC, respigadas da Lusa (a partir de notícias online de acesso livre. Foto: Lusa - Manuel Almeida):


ⓧ A reforma do Estado não se faz com powerpoints.


ⓧ Quem vai para o Governo e chama as pessoas para preparar uma grande reforma, o que vai gerir é comunicação política.


ⓧ Não é preciso nomear um ministro para esse efeito [reforma do Estado]. É contínuo.


ⓧ Podemos chamar os consultores que quisermos. Todos os consultores externos trazem grandes vantagens (...), mas, normalmente, não sabem nada do que se passa num sítio onde a gente quer mudar.


ⓧ Há um conjunto de situações em que o Estado falha.


ⓧ Os serviços não estão adequadamente financiados, não houve investimento suficiente para que eles possam desempenhar no longo prazo a sua missão.


ⓧ É patente que o Estado não exerce [a] função regulatória adequadamente.


ⓧ A maior parte das pessoas que concorrem [a cargos de direção no Estado] sabe que já está decidido antes de o concurso ser feito. Por razões que são, de resto, alheias à própria CReSAP. Têm que ver com a forma como os governantes se comportam.


ⓧ O Estado hoje ainda é um óbice muito grande ao crescimento da economia. E cada vez, me parece, a sua qualidade tem vindo a cair de forma mais gravosa.


ⓧ Há uma espécie de empresas que se especializaram na captação desses fundos [europeus] e que impedem que outras possam aceder a eles.


ⓧ Veja qual é a previsão que há para crescimento per capita a partir de 2027: é miserável, e mesmo sem ser per capita, é miserável.


ⓧ Não podemos ficar de braços cruzados. Não estamos bem. Isto não pode continuar assim

𝗔 𝘁𝗲𝗻𝘁𝗮𝗰̧𝗮̃𝗼 𝗱𝗲 𝗦𝗲𝗴𝘂𝗿𝗼 𝗲 𝗮 𝘃𝗶𝘁𝗼́𝗿𝗶𝗮 𝗱𝗲 𝗩𝗲𝗻𝘁𝘂𝗿a

A vitória de Seguro não poderia ser mais clara.

Uma vitória, antes de mais, pessoal. Partiu completamente sozinho. E, apesar do enorme e transversal apoio que granjeou, também ganhou completamente sozinho. Desde Eanes que não tínhamos um Presidente a chegar em Belém tão livre de compromissos.

Mas esta é também uma enorme vitória da democracia. Sim, por termos barrado o extremismo, mas também e principalmente pelo que Seguro representa de distanciamento em relação à forma hipermediatizada, polarizada e empobrecedora de fazer política, que dominou os últimos largos anos.

A hiper legitimidade de Seguro comporta uma tentação. Num cenário parlamentar extremamente fragmentado, e sem saída à vista, todas as pressões se viram para Belém. Sejam as mais comezinhas, relacionadas como qualquer lei, reforma ou bloqueio, sejam as mais institucionais, mesmo sistémicas. A começar pela mais evidente: a tentação de colocar em Belém o vértice de uma solução de regime que nos salve do extremismo.

Ventura é o outro vitorioso da noite. Conseguiu mais umas centenas de milhar de votos do que o CH em 2025, alastrou pelo país, e ficou claramente acima dos 31,79% da AD nas últimas eleições (por absurda que seja, esta comparação vai ser cavalgada). Ventura proclama-se, portanto, como o novo líder da direita. Esta noite, ficou mais perto de ser o próximo primeiro-ministro.

O grande – praticamente, único – derrotado da noite é Luís Montenegro. Ao colocar o PSD fora da segunda volta, ficou isolado no partido, não concentrou os votos da AD em seguro, o que facilitou o bom resultado de Ventura e terá a vida mais complicada no Parlamento.

José Luís Carneiro ganhou (mais) tempo.

O PSD na Mitra


Três notas acerca da excelente exposição da Ephemera sobre Sá Carneiro (na Mitra, termina amanhã):


- percebe-se, pela amostra do que ali está, que haverá muito material em arquivo para muita investigação, muita história para contar;

- haverá algures arquivos equivalentes a este sobre quem nos tem governado nos últimos 50 anos? Duvido;

- haverá alguém nos outros partidos com o mesmo conhecimento e carinho que Pacheco Pereira tem pela história do PPD?

A mão estendida da bombeira



Atualização: afinal, a bombeira cumprimentou. Há aqui algumas lições, para quem as quiser apreender.

https://lnkd.in/e6gGMP9i



Na sua edição de segunda-feira, o Público publicou uma foto que se tornou viral pelas piores razões.


Na visita a um quartel de bombeiros, André Ventura passa em frente de uma bombeira, que surge de cara fechada, semblante que poderemos associar a repulsa ou a assunção da gravidade do caso ou do momento.


Em lado algum, da legenda ou do texto, o jornal afirma que a bombeira se recusou a cumprimentar Ventura.


Isso não impediu que as redes sociais se tenham enchido de elogios sentidos e poéticos à heroicidade daquela mulher, que teria recusado cumprimentar o candidato presidencial da extrema-direita.


Entretanto, pelo menos outro fotógrafo presente naquela sessão já veio afirmar publicamente que houve, efectivamente, um cumprimento.


Nas redes, instalou-se uma guerra de barricadas: de um lado, os elogios à bombeira; do outro, a defesa de que houve, de facto, cumprimento. Tudo isto com imagens fake a rodos, inclusive com recurso à IA.


Com a publicação daquela fotografia, o Público jogou claramente na ambiguidade. É uma opção editorial, discutível, como tantas outras. Interessante, muito interessante, é que o jornal se tenha mantido alheio à avalanche de publicações nas redes sociais e não tenha sentido a obrigação de esclarecer o contexto da foto que publicou.