Marcelo, 14 valores
Quem será a Ângela Silva do novo Presidente?
O Presidente da República tem muitas formas de falar ao País. Há os discursos e mensagens oficiais e a aprovação/rejeição de leis - quando se trata de comunicação formal com o país todo. Há a palavra de maior ou menor circunstância, quando se dispõe a falar a um microfone que se atravessa no caminho. E há a sinalização de estados de alma, mais ou menos institucionais, comunicados através de jornalistas cuidadosamente selecionados e dirigidos àquilo que agora se chama bolha e que antes se chamava corte.
Sempre assim foi. Soares e Cavaco foram exímios nesse tipo de comunicação, com Alfredo Barroso e Fernando Lima, entre outros, a servirem frequentemente de correia de transmissão. E com jornalistas que, “todos” sabíamos, bebiam do fino e, portanto, se escreviam, era porque “o Presidente”, “o Palácio”, “Belém”, ou “a Casa Civil” tinham soprado.
Apesar de essa comunicação se dirigir primordialmente à tal bolha, um pequeno mundo político-mediático essencialmente lisboeta, o seu conteúdo é muitas vezes altamente relevante, pela quantidade e densidade de “recados” que comporta, ou seja, pelo que vai antecipando no jogo político, ou pelas válvulas de escape que se vão abrindo por essa via.
Marcelo foi evidentemente mega-hiper-ativo nessa frente. Igual a si próprio, foi permanentemente agente e comentador, tão excessivo do ponto de vista comunicacional, como no campo político-constitucional.
Nessa coreografia marcelense teve um papel muito especial a excelente jornalista Ângela Silva, que, no Expresso, tantas vezes a horas impróprias e em textos que nada devem à filigrana, nos foi relatando o que nem as paredes de Belém ouviam. Felizmente, o jornal deixou de ser semanário e é agora um perpétuo online, ou não haveria maneira de lá fazer encaixar a exuberância dos estados de alma presidenciais.
Ora António José Seguro é claramente de outra cepa. Ganhou contra os media, e parece estar em contraciclo com o espalhafato mediático generalizado, o que deixa indiciar que terá uma relação de outro tipo com os jornalistas e um modo mais institucional de se relacionar com o País.
Mas resistirá Seguro a divulgar os seus estados de alma políticos? A sinalizar aos outros agentes políticos o que pensa ou não de certos assuntos, sem se comprometer institucionalmente? Resistirá a essa magistratura de influência, que se traduz em conversas à porta fechada seguidas de notícias sem fonte? Resistirá Seguro a ter uma Ângela Silva?
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De Grândola a Lisboa, 50 anos do rufar dos passos
O mundo e a aldeia
publicado no Jornal Torrejano, em setembro de 2019, num suplemento do 25.º aniversário
e resisto cada vez mais a todas as outras coisas.
o que as coisas têm de belo é quase sempre algo de muito frágil.
ao contrário do que se pensa, não é nada difícil encontrar as coisas belas em todas as coisas.
aquela linha que o arquitecto sonhou e que os pedreiros construíram e a que nunca mais ninguém ligou.
as três notas de piano, que já sabes estarem ali, mas que te emocionam sempre que passas por aquela canção.
o gato indiferente ao teu olhar meigo que se senta ao colo porque a isso tem direito, ora essa.
as composições de mulheres e velas e crianças e céu do sorolla nos mares cantábricos.
justificar o texto no word na esperança de que o grão de poesia em falta se materialize no ecrã.
o ar fresco daqueles dias em que te levantas cedo e dizes para contigo que aquela é a hora de que mais gostas, como se o planeta tivesse só para ti oxigénio novo e luz nova todos os dias.
a simplicidade da pescada fresca cozida, com os legumes, o ovo e o fio de azeite.
as revistas, sempre as revistas, o prazer de folhear, raramente ler, perceber só com o olhar.
a saudade, não aquela dor do que se perdeu, para sempre se perdeu, mas aquela saudade das coisas que sabemos garantidas, pelas quais podemos esperar, porque sabemos que hão-de acabar em abraço.
aquela estrada, nunca a mesma, a leve sensação de andar perdido, condução serena e veloz, veloz e serena, tudo é alentejo, mesmo quando já não o é.
o livro de poesia que abres ao acaso e te fala da mão que procura e acaricia a pele, o sexo, o amor.
a música dos beach boys.
e o travo do macdonalds numa madrugada de verão?
o sorriso de quando chegas, os olhos que procuram os meus.
VPV no DN
De Vasco Pulido Valente, uma pequena história, que certamente não fará parte de qualquer biografia autorizada. Início dos anos 90, Diário de Notícias, acabado de regressar ao setor privado, a definhar face ao jovem azougado e acutilante Público, de Vicente Jorge Silva, e ao inevitável e crescente CM.
No redesenho total (redação, grafismo, estilo, tudo) que Mário Bettencourt Resendes empreendeu - e que levaria o jornal à liderança na segunda metade da década -, havia um suplemento de Cultura, assim, com C maiúsculo. Que tinha editores e redação residentes, mas que na prática, em várias das suas edições (não todas...), era "editado" por VPV.
Acontecia assim: o Mário ia almoçar com VPV, discutiam umas coisas, e depois, com aquelas artes diplomáticas que lhe eram características, lá arranjava maneira de a redação acreditar que estava a editar, ou seja, a gerar e gerir ideias, quando na realidade quem editava era o VPV. Lembro-me, por exemplo, de uma célebre edição em que VPV ajustou contas com outros que, como ele, ocuparam a pasta governamental da Cultura.
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Na década seguinte, VPV ocupou uma coluna da última página, em alguns dias da semana, e eram épicos (até porque atrasavam o jornal...) os debates entre VPV e alguns revisores acerca de uma vírgula, ou a exatidão de uma expressão. Foi nessa altura que fizemos uma manchete de página inteira com o título "Sopram ventos de loucura", retirado da tal crónica de VPV, e que usámos para encabeçar uma lista de maluqueiras de alto calibre que assolavam o planeta. Ainda lembro os olhos de miúdo traquina e divertido do Mário, a explicar a ideia, e a alegria do José Maria Ribeirinho, por ter a oportunidade de brincar com mais uma primeira. Uma manchete feita a partir de uma crónica...
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Há também uma ou outra coisita em que VPV fez muito mal ao DN. Mas isso não vão ler hoje aqui.
A minha despedida de José Mário Branco
Eu sei que hoje é o dia de partilhar a Queixa, a Inquietação, ou mesmo o FMI.
Partilho o início da Canção dos Despedidos:
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Somos explorados no trabalho, e não só
Também somos o lixo
Lixo na tê-vê, quem lá está e quem vê
Lixo no jornal, voz do seu capital
Estamos entregues aos bichos
E o lixo produz mais lixo
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A canção, de 2004, integra o disco Canções Escolhidas, de 2018, que - parece-me - José Mário Branco quis que fosse o seu testamento. Estão lá as mais conhecidas e uns dois ou três murros no estômago, como este. Para as novas e para as futuras gerações.
Só há um José Mário Branco, Que vai dos fabulosos discos do Zeca ao renascimento do fado com Camané. E que queria um mundo novo e bom a cada canção. Um José Mário Branco inteiro, único, radical.
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Lembro aquele fim de tarde de 6 de junho de 2018, na Fnac do Chiado, para apresentar Inéditos 1967-1999, em conversa com Nuno Pacheco.
Uma hora e tal de uma tremenda lição de música e política e vida. Um nó na garganta pela sensação de que aquela era apenas mais uma peça de uma tournée de despedida - a reedição integral dos discos, o disco de inéditos, a colectânea das Canções Escolhidas, entrevistas de vida, como de costume, sem rodeios, com a sinceridade toda do mundo. Partir em paz, missão cumprida. Não desistam, porra.
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Guardo apertados os abraços em letra linda, linda, desse 6 de junho.
How Do You Keep The Music Playing - não é uma canção sobre a música, mas sobre o amor. Como (quase) todas as de Sinatra. Sobre o amor e a vida, enfim.
Escolhi 3 mãos cheias das canções de que mais gosto dele. E essa é, não a minha prenda de Natal, mas a companhia que vos ofereço para 2019.
I've been told and I believe
That life is meant for livin'
And even when my chips are low
There's still some left for givin'
I've been many places
Maybe not as far as you
So I think I'll stay awhile
And see if some dreams come true
tivesse eu juízo, ter-me-ia estreado este ano em paredes de coura. pelo menos, por marlon williams, se outras coisas não houvesse.
não será, também não sou a rolling stone para o dizer, o futuro do rock. mas é o tipo de música que me faz parar tudo e repetir até mais não.
faz-me lembrar - a atitude, a voz, o tema - outro herói muito privado, íntimo até - richard hawley, ao qual não tenho dedicado ultimamente a atenção devida.
marlon, neozelandês a fazer música absolutamente americana. ao segundo disco, uma digressão em sangue por uma paixão perdida. lindo, claro.



