A brincar aos pobres e aos ricos numa cantina de Carcavelos

Imagens do Facebook do vereador João Ferreira (CDU/CML), que há dias alertou para a falta de qualidade das refeições nas escolas públicas de Lisboa 


O caso - noticiado pela Lusa - de um colégio dos Salesianos, em Carcavelos, que serve refeições "para ricos" aos seus alunos e refeições "para pobres" aos alunos da escola pública, daria para um bom debate sobre educação, mas o que houve foi apenas um festival de slogans e equívocos.

Há, é certo, um pecado original da parte do colégio: se considera que o contrato com o Estado, nomeadamente no que respeita às refeições, não lhe permite fornecer serviços de acordo com o seus melhores princípios católicos, então deve simplesmente abdicar desse contrato e, logo, desse lucro.

Mas o foco não deve ser colocado no colégio. Enquanto cidadão republicano e laico, pouco me importa a consciência dos praticantes de uma igreja, muito menos quando envolvidos em atividades comerciais.

O tema de discussão, especialmente para quem considera que a escola pública é um dos maiores ativos da democracia e o mais poderoso elevador social, é o papel do Estado em toda esta história.

Começando por perceber o que leva o Estado a colocar turmas públicas numa escola propriedade de uma igreja, ainda por cima numa zona em que instalações não faltam.

Mas o que a notícia revelou, de facto, para a generalidade das pessoas é a indignidade com que o Estado trata os alunos na escola pública. Porque as refeições "para pobre" que se servem nos Salesianos de Carcavelos obedecem aos critérios utilizados em todas as escolas. Sim, com o financiamento que o Estado fornece, aquelas são as refeições possíveis.

O Estado, e não a Igreja, devem estar no centro do debate. Não foi o que aconteceu. Pelos media e pelas redes sociais escorreu a ladaínha banal e mentirosa de culpar quem menos responsabilidade tem, numa lógica de mata-frades sem nexo.

Para que tudo acabe "em bem" só falta, aliás, que o Estado invente uma solução para pôr os meninos pobres de Carcavelos a comer "comida de rico", enquanto o resto do país fica a olhar para o fundo da malga.

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