O combustível das desigualdades



O comportamento dos governos na atual crise energética, tal como noutras mais recentes, contrasta flagrantemente com o que ocorreu, por exemplo, na famosa crise energética dos anos 1970. Enquanto, agora, o objetivo parece ser manter os níveis de consumo, através da subsidiação, há umas décadas, os governos optaram mais decididamente pela travagem do consumo, por via dos racionamentos.

Isto deve-se, especialmente, a dois fatores, de ordem mais psicológica do que económica.

Desde logo, o mundo está hoje muito mais dependente dos combustíveis, da circulação de bens, mas especialmente, de mercadorias.

Acresce que os estados, especialmente desde a epidemia, mas também por causa dos fenómenos climáticos, tornaram-se demasiado generosos com os seus contribuintes, quase dispensado a intervenção das seguradoras.

Estamos, porém, a jogar em aparências, das quais poderão advir resultados contrários aos alegadamente pretendidos.

A extraordinária circulação de pessoas, especialmente induzida pelas low cost, democratizou as férias e o turismo, mas tem um evidente efeito nefasto no ambiente. As low cost fazem bem às pessoas, mas fazem muito mal ao planeta. E, não nos iludamos: às low cost de pessoas corresponde uma circulação low cost de mercadorias. Tão, ou mais, perniciosa para o planeta como as outras. Não, não faz qualquer sentido produzir maçãs na América do Sul para vender na Europa. Ou engarrafar água no Japão para vender no Harrods.

Quanto à hipersubsidiação do estado à economia, sob a aparência de apoiar os que mais necessitam (ou mesmo a classe média), estes dinheiros do Estado acabam por cair nos cofres dos mais ricos. Conforme todos os estudos comprovam, dos momentos de crise económica planetária que temos vivido resultou sempre um enriquecimento ainda mais desproporcionado dos mais poderosos e o agravamento do fosso relativamente aos mais pobres.

Vai acontecer novamente. Está a acontecer novamente.

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