The lyrics, not just the music



É bem possível que Ethan Hawke ganhe o Oscar para melhor ator. Na verdade, Blue Moon foi feito, literalmente, para ele. Dos 100 minutos que dura o filme, ele aparece em 99, melhor, ele é protagonista em 99, ora seja em monólogos, ora em diálogos centrados nele. Esmagador, de ficar sem fôlego, até porque vários são os momentos em que é impossível ficar indiferente às sucessivas máscaras com que dissimula o desespero.

Mas o filme merecia mesmo era o Oscar para melhor argumento.

É um filme sobre a escrita de canções, sobre as letras. Não confundir com poemas, isso é outra coisa.

Ao contrário do que possa parecer, a música pop - numa acepção muito lata, que engloba o american songbook, retratado neste filme - vive tanta da música como das letras.

A pop, aqueles 3-4 minutos de cada canção, é um concentrado de emoções, tanto dirigidas ao ouvido como a zonas menos visíveis, talvez o coração, talvez a alma.

A música é, não há volta a dar, o primeiro veículo que traz até nós as canções. Mas nenhuma fica, nenhuma cola, se não tiver aquela letra, com umas palavras mágicas, uns versos que fazem parar para ouviu e reouvir, umas rimas que nos desafiam a cantar.

Uma canção só é um sucesso, ou só anda connosco o dia todo, se tiver uma letra que desencadeie o enamoramento. Até quando cantarolamos, porque não sabemos a letra, é à volta da letra que andamos.

Este filme é sobre isso. Sobre o poder da palavra, mesmo num território, a música, em que supostamente ela poderia estar ausente.

O argumento, baseado em cartas de Lorenz Hart, capta maravilhosamente esse papel das letras, através de uma quase alucinante sucessão de exemplos.

Blue Moon é, bem vistas as coisas, é um filme sobre a arte de contar histórias. Um filme para apaixonados pela escrita, pelo prazer da língua. E, claro, não apenas na música.

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