Quem será a Ângela Silva do novo Presidente?



O Presidente da República tem muitas formas de falar ao País. Há os discursos e mensagens oficiais e a aprovação/rejeição de leis - quando se trata de comunicação formal com o país todo. Há a palavra de maior ou menor circunstância, quando se dispõe a falar a um microfone que se atravessa no caminho. E há a sinalização de estados de alma, mais ou menos institucionais, comunicados através de jornalistas cuidadosamente selecionados e dirigidos àquilo que agora se chama bolha e que antes se chamava corte.

Sempre assim foi. Soares e Cavaco foram exímios nesse tipo de comunicação, com Alfredo Barroso e Fernando Lima, entre outros, a servirem frequentemente de correia de transmissão. E com jornalistas que, “todos” sabíamos, bebiam do fino e, portanto, se escreviam, era porque “o Presidente”, “o Palácio”, “Belém”, ou “a Casa Civil” tinham soprado.

Apesar de essa comunicação se dirigir primordialmente à tal bolha, um pequeno mundo político-mediático essencialmente lisboeta, o seu conteúdo é muitas vezes altamente relevante, pela quantidade e densidade de “recados” que comporta, ou seja, pelo que vai antecipando no jogo político, ou pelas válvulas de escape que se vão abrindo por essa via.

Marcelo foi evidentemente mega-hiper-ativo nessa frente. Igual a si próprio, foi permanentemente agente e comentador, tão excessivo do ponto de vista comunicacional, como no campo político-constitucional.

Nessa coreografia marcelense teve um papel muito especial a excelente jornalista Ângela Silva, que, no Expresso, tantas vezes a horas impróprias e em textos que nada devem à filigrana, nos foi relatando o que nem as paredes de Belém ouviam. Felizmente, o jornal deixou de ser semanário e é agora um perpétuo online, ou não haveria maneira de lá fazer encaixar a exuberância dos estados de alma presidenciais.

Ora António José Seguro é claramente de outra cepa. Ganhou contra os media, e parece estar em contraciclo com o espalhafato mediático generalizado, o que deixa indiciar que terá uma relação de outro tipo com os jornalistas e um modo mais institucional de se relacionar com o País.

Mas resistirá Seguro a divulgar os seus estados de alma políticos? A sinalizar aos outros agentes políticos o que pensa ou não de certos assuntos, sem se comprometer institucionalmente? Resistirá a essa magistratura de influência, que se traduz em conversas à porta fechada seguidas de notícias sem fonte? Resistirá Seguro a ter uma Ângela Silva?

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