A verdade de Ventura

 

Para depois do debate, AV já tinha preparada a obrigatória "sondagem", que lhe dá a vitória esmagadora

A derrota do campo democrático, resultante do debate entre André Ventura (AV) e José Pacheco Pereira (JPP), foi mais funda e perene do que um olhar superficial poderia concluir.

Com a sua iniciativa, JPP permitiu que AV transformasse mais uma das suas mentiras primárias – houve mais presos políticos em Portugal depois do que antes do 25 de abril – numa “verdade científica”.

AV apresentou-se munido de provas irrefutáveis: um relatório com chancela oficial do Estado português, listas de nomes, relatos de casos. E fez o que se esperava, descontextualizou, disse tudo e o seu contrário, respondeu com alhos a bugalhos. E fê-lo com aquela determinação e convicção de quem tem toda a razão do seu lado.

Demonstrou, para os seus apaniguados – mas, especialmente, para os que ainda hesitam, entre os quais os mais jovens e os menos politizados –, que, sim, há uma outra verdade sobre o Estado Novo, o colonialismo, o 25 de abril e o período revolucionário. Que essa “verdade” é uma verdade para a qual há provas e uma narrativa consistente. Pouco importam as nuances, os pormenores, as mentiras. Há uma narrativa e isso é tudo o que importa neste tempo.

E foi isso mesmo que ficou deste debate. Essa “verdade” comprovada de que o pós-25 de abril foi pior que o Estado Novo. A partir de agora basta repetir sempre que necessário.

JPP nunca conseguiu sair do pecado original que o conduziu àquela mesa: não é razoável, sequer honesto, comparar acontecimentos esdrúxulos de um curto período revolucionário com meio século de um regime que tinha nesses procedimentos uma das suas bases de sustentação. E não teve, sequer, a elasticidade para largar uma gargalhada quando o outro citava “o historiador Rui Ramos”…

Na prática, cada um esteve no seu debate. JPP, na sua quadratura do círculo, com aquelas graçolas semióticas da palmatória em cima da mesa e um discurso repleto de simbolismos, apenas entendível pelos que estão dispostos a isso. AV foi AV vintage, limitando-se a pegar nas deixas que JPP lhe dava para despejar ideias simplistas e “verdades” básicas.

Foi um debate entre a democracia e o autoritarismo. Sendo que isso é, sem si mesmo, uma impossibilidade: a democracia e o autoritarismo são dois sistemas que se excluem mutuamente, não havendo qualquer possibilidade de formular um conjunto de regras para um diálogo.

JPP sabia isso de antemão. AV também e aproveitou a passadeira que lhe estenderam.

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