Apresentado, na quinta-feira, com pompa e circunstância, pelo primeiro-ministro, o modelo de Inteligência Artificial (IA) português, batizado de Amalia, talvez em homenagem à lontra do Oceanário, promete revolucionar a Administração Pública, mas não terá (para já?) versão para o público.
Só que, menos de 24 horas depois, a redes sociais encheram-se de publicações, com os disparates que a tal Amália estaria a responder às pessoas. Essas publicações foram feitas por deputados, assessores parlamentares, jornalistas de investigação ou nem tanto, investigadores universitários de renome internacional. E até media especializados.
Era tudo mentira. As pessoas não quiseram saber dos alertas sobre a indisponibilidade da Amalia para responder ao “amável público”, o facto de a Amália que estavam a replicar ter acento, ao contrário da IA, que é só Amalia, e, finalmente, de aquela que estava a dar respostas usar um avatar de uma famosa fadista, coisa que a original não fazia. Em linguagem técnica da IA, toda a gente partiu do princípio de que a máquina estava a alucinar, e não de que estávamos perante um esquema, se não ilegal, de legitimidade duvidosa.
Na prática, e de forma simplista, alguém criou um chat para o público, utilizando o código aberto de Amalia. E toda gente acreditou.
Primeira lição deste episódio: a nossa predisposição atual para acreditar em tudo o que nos põem à frente é enorme. Ninguém – ou poucos – se deu ao trabalho de verificar se aquilo era autêntico. Pior: as redes encheram-se de “especialistas” pró-governamentais, que nos explicavam serem naturais aqueles erros grosseiros, numa fase de lançamento (!). E a lição é que temos, mesmo, que estar mais atentos a tudo. Verificar, verificar, confirmar, confirmar.
A segunda lição: os governos e entidades similares têm de ser muito mais cuidadosos com a forma com que lidam com estes temas. Mais cuidadosos logo na raiz: estes sistemas têm de ter mecanismos de proteção. Mas muito mais cuidadosos com a forma como comunicam estes temas: é necessário, cada vez mais necessário, ser cuidadoso e utilizar mecanismos de gestão de crise defensivos.
Bem sabemos que temos um governo que elegeu como parceiro privilegiado um partido que não passa de uma fábrica de fake news e de mentirosos. Mas convém que os atores políticos não se confundam a eles próprios e entendam, pelo menos, a diferença entre o que pode ser meramente instrumental e o que é, de facto, matéria fulcral da governação. Não é difícil, basta quererem.

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