Prefab Sprout - Grief Built the Taj Mahal [2013]

durante a semana, fui à fnac levantar a encomenda d'os irmãos karamazov que tinha feito na semana anterior (e edição da relógio d'água está a muito bom preço na net).


O mundo mudou, mas a Economist não. É o que parece quando se lêem os artigos da revista que cruzam os interesses económicos com a actividade política. Se há lição muito evidente da crise que varre o mundo desde 2008 é que a economia foi longe de mais e que os Estados se demitiram frequentemente, a começar pela actividade regulatória.

É bom exemplo disso o artigo de capa desta semana, sobre uma iniciativa em discussão no Parlamento Europeu com vista a mitigar o poderio dos monopólios digitais (é, de facto, curioso que o mundo digital viva situações de monopólio em tantas áreas: Google, Facebook, Youtube, Spotify - é óbvio que há outras empresas, mas são anões ao pé de gigantes).

O texto da Economist tem pano para mangas, mas basta um exemplo para se perceber o tipo de falácia em que a revista cai.

Talvez o mais interessante seja a acusação de que o Parlamento Europeu está a legislar para... defender as empresas europeias. Esta tese, verdadeiramente espantosa, pretende ignorar que estamos, de facto, perante uma guerra geo-estratégica de carácter económico. Porque - entre outros factores - os tais monopólios só se instalaram porque foram enormemente fomentados e protegidos pelos vários poderes (político, económico, cultural...) americanos, perante a complacência dos poderes noutras áreas do Globo. Um parênteses para recordar que por detrás da aparente benevolência desses monopólios - que nos servem a todo instante tantos e tão bons serviços gratuitos -, há interesses que vão desde coisas tão práticas como a espionagem comercial e industrial a outras bem mais complexas, que podem envolver um controlo político à escala global.

Ou seja, a Economist acha que o Parlamento deveria defender a livre concorrência, quando as empresas europeias são descaradamente barradas nos EUA.

Enfim, este é apenas um exemplo dos múltiplos enviesamentos de que que padece o texto da revista. Verdade seja dita que eles até alertam para o facto de o presidente executivo da Google fazer também parte da administração da holding que detém a Economist...

Frank Sinatra - Too Marvelous For Words [1937-1957-1962]

Negativo com positivo dá positivo.
Negativo: a quebra continuada das vendas de música em suporte físico;
Positivo: a evolução tecnológica, mais especificamente a digitalização;
Resultado: a indústria discográfica apostou, especialmente na última década, na recuperação de velhas gravações, umas vezes disponibilizando documentos inéditos, outras dando nova vida a gravações de má qualidade. 
O balanço é francamente positivo, para a indústria, mas especialmente para todos nós.

Um dos documentos mais extraordinários dessa odisseia é a edição integral das Basement Tapes, de Dylan, ocorrida este Outono. Aquelas semanas de pura magia, que mudaram para sempre a história da música, já tinham sido alvo de várias edições bootleg e até mesmo de uma oficial, que, curiosamente, é a que mais trai a verdade do que se passou naquele Verão de 67.

Noutra escala de importância, a edição em vídeo da famosa digressão europeia de Frank Sinatra com um sexteto de jazz. Aqui, Too Marvelous For Words, o tema de Johnny Mercer (1937) que Sinatra incluíra em Songs For Swingin' Lovers (1957). 
A gravação é de 1 de Junho de 1962, em Londres. A uns milhares de quilómetros, aqueles também eram dias de alegria...

John Grant - You Don't Have To [2013-14]

Remember walking hand in hand side by side?
We walked the dogs and took long strolls to the park
Except we never had dogs
And never went to the park.

Remember how we used to fuck all night long?
Neither do I because I always passed out.
I needed lots of the booze
To handle the pain.

You don't have to pretend to care.

um dos espantos que renovo, há uns bons anos, é o tempo, os neurónios e até o afecto que pessoas supostamente cultas e inteligentes gastam com a televisão, apenas para concluírem que não presta. ora a televisão nunca poderá ser nem culta nem inteligente, precisamente porque foi concebida para as massas.

Elton John - The New Fever Waltz [2013]

[é sobre a I Grande Guerra, mas poderia ser sobre outra coisa qualquer]

a amizade e o amor são importantes porque fomos concebidos para o desencontro, desesperamos pela diferença. temos medo do amor (e não nos comprometemos com a amizade) porque temos medo que ele nos roube a diferença.


hoje, no Público

Fausto - Como um Sonho Acordado [1982]



a new republic é a revista que qualquer liberal (no sentido político e americano, ou seja, a esquerda moderada europeia) deveria ler.
está a fazer 100 anos e decidiu escolher os 100 pensadores mais influentes desse seu século. uma escolha evidentemente americana, mas com algumas surpresas bem interessantes.
gosto especialmente das listas da filosofia, da diplomacia e da inovação digital. e da música, claro.
é espantoso que tenham uma lista de críticos literários, mas não de escritores. coisa que daria pano para mangas.

Tindersticks - Dying Slowly [2001/2013]

this dying slowly 
it seemed better than shooting myself

if i could find the words to explain this feeling 
i would shout them out

no campo da ficção, também gosto muito do spam carinhoso que vou recebendo. da senhora justina savadoogo, por exemplo. fiquei especialmente sensibilizado por ter sido escolhido por alá, numa reunião de ministros do comércio na austrália.
I am glad to know you, but Allah knows you better and he knows why he has directed me to you at this point in time so do not be afraid. I saw your e-mail contact at Australia ministries of commerce and foreign trade departments. I am writing this mail to you with heavy sorrow in my heart, My Name is Mrs Justina Savadoogo. 
acho que vou responder-lhe.
estava aqui a ler o press release de um novo disco de música portuguesa:
a doce voz da X é o baloiço de madeira em canções de qualidade ímpar com letras de quem não finge sentir. Estamos perante uma monstruosa lição de canto para qualquer um de nós, e com a produção desarmante do X, [o disco tal] aperalta-se para preencher o lugar que há muito o aguardava. Aqui não há margem para discussões sobre gostos ou apreciações. Aqui não é dada sequer a hipótese a uma outra margem. Só há espaço para entrar, despir tudo e contemplar a brilhante atmosfera para onde somos transportados a cada pulsação de avanço, como um rio que transborda todas as memórias que merecem estar à tona.

Real Estate - Primitive [2014]

acho maravilhosa aquela funcionalidade do gmail que, quando escrevemos a palavra 'anexo' no texto, e não agimos em conformidade, nos alerta: oh palerma, esqueceste-te do anexo. além do mais, isto deve dar emprego a uma data de chineses ou indianos, obrigados a ler instantaneamente todas as palermices que escrevemos, coitados!

*

estou aqui com o iTunes hesitante: carrego o iPhone com os discos dos concertos de colónia do keith jarrett, os seis discos das basement tapes do dylan, ou deixo aquilo no shuffle do costume? às vezes, entram por ali uns abba que até arrepia.

*

tenho saudades do alfa pendular.

*

Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,

agora lês saramagos & coisas assim
e eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.

O café agora é um banco, tu professora do liceu;
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos por andar como dantes.

o poema chama-se Esplanada e é do Manuel António Pina, o tal poeta que eu (e o mundo) só descobri tão tardiamente. um belo poema sobre pernas, com a imprecisão de a parte andante delas ser meramente acessória (acho que ele escreveu assim, se calhar por causa da rima. ou da métrica).
this is the light that never goes out

The Beatles - You Won't See Me [1965 - mono]

we have lost the time
that was so hard to find

through the wind, through the rain, the snow, the wind, the rain


Cowboy Junkies - The Stars of Our Stars [2004]

Times at night, in the spill of light
You catch a glimpse
You make a start with an eager heart
But it always slips
And then everything shifts

Stop Looking at Your Phones!

Neil Young - Say Hello to Chicago [2014 - orchestra version]

Let us not be strangers if we come to know
Things about each other that seem to come and go
‘Cause friendship is everything if love is to last
And I have my guard down and love passes fast
Love passes fast, love passes fast. Love passes fast.

The Beatles - I'm So Tired [1968]

i'd give you everything i've got for a little peace of mind



[the knick]

George Harrison - Be Here Now [1973]

remember, now, be here now
as it's not like it was before
the past, was, be here now
as it's not what it was before it was

why try to live a life
that isn't real, no how
a mind that wants to wander
round a corner is an unwise mind

now, is, be here now
and it's not what it was before
remember, now, be here now
as it's not like it was before it was

Repetir repetir — até ficar diferente.
Repetir é um dom do estilo. 

Manoel de Barros [1916-2014]
The life of ideas—and it ranges from philosophy to journalism—is lived in part for its own sake, that is, for the sake of understanding things. But there are ideas that are developed and espoused also for their impact upon things, for their consequences—because they will bring about change.

The New Republic, talvez o mais extraordinário texto dos últimos tempos sobre opinião, jornalismo, redes sociais, política.

Françoise Hardy - Si Vous N'Avez Rien À Me Dire [poema de Victor Hugo - 2012]

take care of your memories
for you cannot relive them

Bob Dylan, Open The Door, Homer
The Basement Tapes, The Bootleg Series, Vol. 11

Sétima Legião - Sete Mares

a primeira casa em que vivi em lisboa tinha na marquise os teclados dos sétima legião. e na pequena sala ainda ecoavam às vezes sons longínquos de gaitas de foles e esvoaçavam as vestes de miúdas giras e robustas do norte e vozes graves de marinheiros do sul. era em campo de ourique.


Lisa Ekdahl - Happiness is Brief [2014]

lisa ekdahl, uma sueca-sopinha-de-massa-com-a-mania-que-canta-jazz, é apenas mais um exemplo de como a música e o gosto musical não são coisas que se expliquem.


photokissin.tumblr.com
os bilhetes para o nos alive, em julho de 2015, já estão à venda e prometem ser um sucesso de natal.
primeira cabeça de cartaz: os muse.
e logo em 2015, em que eu gostaria de lutar por um mundo melhor.
[walking dead, house of cards, homeland]
os argumentistas das séries de televisão deveriam saber que, ao contrário da vida, a ficção tem limites.

Elvis Presley - I Forgot to Remember to Forget [1955]

Tom Zé - Geração Y [2004 - c/ Criolo]

a geração que "tira a calcinha" nas redes sociais, mas que, um dia, vai ter de, "infelizmente, governar". o tom talvez precise de vir à europa para perceber que a geração y já governa, infelizmente.
lírico e corrosivo, tom zé.
o resto do disco pode ser ouvido aqui e tem uma canção que deixa as orelhas de dilma a arder ('esquerda, grana, direita') e outras que o papa francisco é capaz de gostar (ou não).

Neil Young - Tumbleweed [2014 - orchestra version]

Neil Young - Plastic Flowers [2014 - solo version]




Daisy Bowen, 13, student
Pulp: Different Class

“I got a record player for my 13th birthday in April, a small orange portable one. I had this on my iPod beforehand—my dad liked Pulp and put it on for me. I love Pulp because their songs are so story-like and their lyrics are quite poetic. Plus Jarvis Cocker is just awesome. Since then I’ve bought a lot of the Smiths and Morrissey. It’s always nice to go looking for records—mainly I go with my mum to the record shops in Islington. And I have one friend who’s into records too. I like how on a record it sounds more like the music is coming from the musician, not transferred from somewhere else.” [in Intelligent Life, Nov/Dec 2014]
uma das reuniões mais importantes foi aquela em que convencemos adriano (duarte rodrigues) (*) então director da faculdade, que a projecção do 'garganta funda', a meio da tarde, seria feita apenas para estudantes da fcsh. um inteligente jogo do gato e do rato: naquela altura, já se falava da pornex por todo o lado e o salão haveria de ficar a abarrotar de gente, com muitos estudantes de outras faculdades. mas adriano, especialista em media (*), fingiu que nós íamos vedar a entrada a estranhos e nós fingimos que íamos vedar. aprendia-se muito na faculdade, naqueles tempos.
a ideia tinha sido do rui, muito influenciado pelo alberto pimenta, e foram ambos protagonistas do evento. a coisa serviu também para afirmar a associação de estudantes, que tínhamos constituído muito recentemente, com gente de todos os cursos - por incrível que pareça, até havia pessoas de gravata na direcção.
é claro que tem uma certa graça que o rui coloque tudo na primeira pessoa, especialmente as conversas com o director - afinal de contas, todos temos que fazer pela vida, não é?

quanto ao que se passou recentemente com o ics e a fac dir coimbra, não deixa de ser uma surpresa, especialmente tendo em conta o tipo de instituições que praticaram o acto de censura (não tem outro nome).
durante muito tempo, admiti que salazar deixou marcas muito profundas, especialmente na cabeça das pessoas. mas tendo a rectificar e a ver salazar como mero epifenómeno de algo mais fundo. basta olhar para a nossa história, a mais longínqua e a mais próxima, e ficamos espantados com os raríssimos momentos de luz.

(*) Joaquim M. Nazareth

George Harrison - All Things Must Pass [1970]

'All Things Must Pass', o primeiro disco de George Harrison pós-Beatles, entrou esta semana para o meu top privativo. Lançado em 1970, sob a forma de triplo LP, o disco é uma verdadeira explosão de criatividade. Nunca o tinha ouvido com a atenção que merece.

Duas das canções menos conhecidas, nas primeiras versões de estúdio (a primeira é dedicada e sobre Bob Dylan):





And while the Pope owns 51% of General Motors
And the stock exchange is the only thing he's qualified to quote us
The Lord is awaiting on you all to awaken and see
By chanting the names of the Lord and you'll be free


E esta é a canção que os Beatles gostariam de ter gravado:

Mark Lanegan Band - Torn Red Heart [2014]
Joy Division - Atmosphere [1980]

you don't love me
what's to love anyway?
you don't love me
would love be my saving grace?




walk in silence
don't turn away, in silence
your confusion
my illusion

Wilco - How To Fight Loneliness

How to fight loneliness
Smile all the time
Shine your teeth til meaningless
Sharpen them with lies

And whatever's going down
Will follow you around
That's how you fight loneliness
You laugh at every joke
Drag your blanket blindly
Fill your heart with smoke
And the first thing that you want
Will be the last thing you ever need
That's how you fight it

Just smile all the time