Estamos no verão e a paciência dos políticos sobrevive mal ao sol a pino. O caso dos exames deitará abaixo o ministro, se daqui a uma semana tudo estiver num caos. Ou, caso tudo se resolva, cof cof, à boa maneira portuguesa, a polémica morrerá afogada nos mares de agosto.
Mas há três ou quatro temas, que
estão nos bastidores do caso, que valeria a pena salvar da estação tonta:
- Antes de mais, a reforma do Estado. Sempre que a expressão é utilizada, sabemos que haverá fragilização da Administração Pública e a criação de áreas de negócio para os privados. E também sabemos que as mudanças, por regra, não resultam de qualquer estudo ou planeamento e que a sua avaliação nunca será feita. Não tem que ser necessariamente assim. Haverá casos de sucesso, mas faltam evidentemente estudos independentes que o comprovem - o tema não é sexy para a nossa comunidade científica. Essa letargia académica alimenta o obscurantismo e "reformas" mantêm-se o estatuto de poção mágica.
- Depois, a contratação pública. Quem já teve de lidar com qualquer concurso público sabe o absurdo kafkiano que aquilo é. Cadernos de Encargos risíveis, valores sem qualquer correspondência com a realidade, júris incompetentes, decisões para lá de tontas. Um campo de minas para o Ministério Público, como vemos todos os dias. É uma área que precisa de um choque de simplificação, devolvendo aos decisores a sua principal razão de ser: a capacidade de decisão. Com o CCP, a Administração Pública transformou-se numa estufa que cria desresponsabilização 25 horas por dia.
- O tema da digitalização é outro equívoco. O Estado está sempre – e bem – a tentar não perder a onda, ou até a antecipá-la. Mas como poderá fazê-lo, com toda a sua burocracia, num setor extremamente dinâmico? Um elefante num campo de chips. Esta seria uma área excelente para uma cooperação tripartida Estado-universidades/investigação-empresas, mas, como sabemos, a concertação, social ou outra, não é o nosso forte. Falar em Inteligência Artificial, neste cenário de Indigência Material, causa tonturas.
- Como não tem capacidade – vidé pontos 1 e 2 –, para resolver o problema 3, o Estado recorre crescentemente ao fascinante mundo das start-ups. Empreendedores jovens, formados em marketing ou design (nas start-ups, usar inglês é obrigatório…), com sede no salão de cabeleireiro dos pais, financiados por fundos europeus mesmo depois de falidos, a prestar serviços de informática avançada? Sim, são isso as start-ups. Haverá exceções? É possível, como no provérbio das bruxas, que las hay.
- (a suivre), como se escreve na BD francófona
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