a thousand hungry flowers
loving you for hours and hours
soon smothers me so tenderly


Malcolm McLaren + Françoise Hardy - Revenge of the Flowers

discos para o resto da vida [9.5.]
(1981) the visitors, abba

e que tal uma canção descrevendo minuciosamente os gestos rotineiros suburbanos de uma empregada de escritório? - embora sempre me tenha intrigado por onde andou ela entre as 5 (quando sai do escritório) e as 8 (quando roda a chave da porta de casa).

supostamente, esta é uma canção sobre o tédio antes do amor. porém, na net - a net é um sítio fabuloso - circulam versões de que será, antes, a descrição de um dia normal antes da... morte. tudo isso baseado no coro assombrado que a certa altura irrompe pela canção.
amor, morte? nesta altura, para os abba, já tudo era igual ao litro.


abba - the day before you came

Perfume Genius, Sharon Van Etten & Friends - To Lay Me Down



from ‘Day of the Dead’, a tribute album to the Grateful Dead curated by Aaron and Bryce Dessner of The National, with all profits going to Red Hot Organization. ‘Day of the Dead’ is released on 20th May via 4AD.


os táxis têm uma semana de luta contra a uber.
quer dizer, então, que vão finalmente modernizar os carros (vá lá, lavá-los...) e fazer um curso de boas maneiras (vá lá, deixar de arrotar na cara dos clientes...)?

discos para o resto da vida [9.4.]
(1981) the visitors, abba

em 'the visitors', as canções atingiram uma densidade - de escrita e interpretação - nunca antes presente nos discos dos abba.
por outro lado, aquele fio subliminar de melancolia presente em tantas das canções anteriores toma aqui o lugar central.


abba - when all is said and done




a sara faz anos no mesmo dia da minha filha e durante muitos anos a lília ligava a dar-'nos' os parabéns.

às vezes, ouvia a lília ao telefone: 'já não me está a ouvir, pois não?' eu era editor de política e a lília jornalista na madeira, cercada por jardim e mar - o que ela gostava de dizer que não era da ilha e que toda aquela água às vezes cansava. precisava de quem ouvisse os seus desabafos, só que a coisa podia prolongar-se por horas... mas também nisso ela nunca desistia. deixava de a ouvir nesse dia, a conversa continuava logo a seguir.

num dia (domingo? de que ano?), a lília ligou-me com aquela excitação serena na voz de quem tinha uma notícia: 'tenho uma notícia'. mas não podia ser ela a escrever, para não queimar a fonte. e foi assim que, com a minha assinatura, o dn foi o primeiro jornal a noticiar o futuro nascimento do bloco de esquerda. a fonte - hoje já se pode dizer - era um dirigente da udp/madeira.

anos mais tarde, encontrámo-nos em lisboa. a lília gostava de vir, penso que para arejar do sufoco da ilha e do jardim. e tinha em lisboa um grupo com quem jantava, no qual - o destino tem destas... - participava a pessoa com quem eu na altura trabalhava.

um dia ligou-me a chorar: 'morreu o filho do...'. e foi por ela, no funchal, que soube da morte do filho de um amigo comum, em lisboa.

a desilusão (a incompreensão...) pelo que se passava no jornalismo era tema obrigatório nas nossas conversas nos últimos e largos tempos. o seu despedimento do dn, há poucos anos, foi um acto simplesmente estúpido.

a última vez que falámos foi há uns dois meses, agora já ambos nas nossas funções do outro lado do jornalismo. não me disse que estava doente - parece que não disse a ninguém - e devemos ter falado, pela enésima vez, do 'pode ser que seja agora que nos encontremos no funchal'...

do que mais vou ter saudades é daqueles olhos grandes e meigos e do sorriso desarmante.

discos para o resto da vida [9.3.]
(1981) the visitors, abba

este tema ganhou relevância quando quando, anos mais tarde, elvis costello e anne sofie von otter gravaram uma versão.
uma belíssima canção.



abba - like an angel passing through my room

além da versão de costello / von otter, há outra de que gosto muito.
foi gravada por madonna, em 2000, e acabou por ficar de fora do cd 'music'. na net, circulam duas versões: uma orquestral e esta, com a marca inconfundível da produção de william orbit.

da falta de sentido das fotos


regressar ao local onde se foi... o quê, mesmo?

alguns jornais dizem que há jornalistas nas listas de pagamentos do ges e mesmo nos panama papers. mas não dão nomes... lá está, deve ser mais uma daquelas notícias que não se confirmam. vá lá a gente confiar nos jornais (ou será nos jornalistas?).

discos para o resto da vida [9.2.]
(1981) the visitors, abba

em relação aos abba, a eterna questão: foram eles a causa ou já a consequência de uma indústria musical canibalizadora do melhor do música anglo-saxónica ao ponto de vir a dar cartas nessa mesma cena musical? vide aqui, por exemplo [wikipedia - max martin].


abba, the visitors

discos para o resto da vida [9.1.]
(1981) the visitors, abba


quando, em 1981, os quatro abba entraram em estúdio para gravar 'the visitors', acabara de ser anunciado o segundo divórcio no interior da banda.
a primeira pessoa das eternas canções de separação era agora a sério. aquele viria a ser o seu último disco.


abba - one of us

Pascal Comelade - Grândola Vila Morena



claro que prince não era apenas o autor do maior sucesso de sinnead o'connor e logo de todos aqueles concursos de candidatos a cantores. mas há um certo over (re)acting ao seu desaparecimento.

*

há um bruá imenso porque uma banda chamada AC/DC trocou de vocalista. polémica catita, tendo em conta que os fãs dos AC/DC (e do rapaz vocalista...) são uma imensa massa de surdos

discos para o resto da vida [8.5.]
(1997) the boatman's call, nick cave and the bad seeds

and i don't believe in the existence of angels
but looking at you i wonder if that's true
but if i did i would summon them together
and ask them to watch over you
to each burn a candle for you
to make bright and clear your path
and to walk, like christ, in grace and love
and guide you into my arms

o amor como continuação da religião, vice-versa, ou como substituição. eis o tema mais recorrente em nick cave, sendo esta canção o pináculo dessa expressão.



nick cave and the bad seeds - into my arms

discos para o resto da vida [8.4.]
(1997) the boatman's call, nick cave and the bad seeds

é o disco mais lírico de nick cave, mesmo até do ponto de vista instrumental.
melódico, maioritariamente assente em baladas, com predominância dos instrumentos acústicos (o piano é verdadeiramente a base de quase todos os temas). longe das massas sonoras e dureza de muitos dos seus outros discos.



nick cave and the bad seeds - there is a kingdom

entretanto, no instagram



há década e meia, quando os blogues eclodiram em portugal e muita gente começou a publicar gatinhos e pores do sol na internet, àqueles que se queixaram das primeiras caneladas em público, pacheco pereira alertou que o meio - referindo-se à net, mas penso que também a todo o espaço público - é ácido. o meio é ácido. espantosa continua a ser a quantidade de gente que, hoje, ainda não percebe que esse espaço público em que se movem políticos, multifacetados profissionais dos media e todos os in between é ácido. e que não há muito a fazer quanto a isso, a não ser sobreviver dentro ou dar o fora.

discos para o resto da vida [8.3.]
(1997) the boatman's call, nick cave and the bad seeds

It ain't that in their hearts they're bad
They can comfort you, some even try
They nurse you when you're I'll of health
They bury you when you go and die
It ain't that in their hearts they're bad
They'd stick by you if they could
But that's just bullshit
People just ain't no good



nick cave and the bad seeds - people ain't no good

discos para o resto da vida [8.2.]
(1997) the boatman's call, nick cave and the bad seeds

When I was making half that record I was furious because certain things had happened in my love life that seriously pissed me off. 
And some of those songs came straight out of that. 
I don't regret making it ... the songs are of a moment when you felt a certain way. When... you just think, 'Fuck - please!'



nick cave and the bad seeds - green eyes

discos para o resto da vida [8.1.]
(1997) the boatman's call, nick cave and the bad seeds

este é o disco preferido de todos os apaixonados que não acreditam num deus intervencionista...

the smell of you still on my hands
as i bring the cup up to my lips



nick cave and the bad seeds - brompton oratory

discos para o resto da vida [7.5.]
(1977) [les marquises], jacques brel

il est vrai que souvent
la mer se désenchante
je veux dire en cela
qu´elle chante
d´autres chants
que ceux que la mer chante

e depois há o brel profundamente lírico. autor de versos que nos fazem ver paisagens do 'plat pays', ou mares que nos lembram a infância, mesmo quando já não são os da nossa infância.

e o brel zangado - desencantado? - com as mulheres, que põe em causa o famoso verso de aragon sobre elas e o futuro.

uma nota ainda para o cuidado extremo na orquestração destas canções, de grande rigor e subtileza, com uma paleta bem mais ampla do que no resto da sua obra.


esta rapariga - da qual escolhi uma canção razoavelmente audível - está longe de figurar nas minhas preferências. talvez por isso - oh karma... -  escrevo sobre ela com uma regularidade suíça. volta a acontecer esta semana. na time out, puxaram a cena do soutien para a capa, os tarados.

discos para o resto da vida [7.4.]
(1977) [les marquises], jacques brel

uma ironia nem sempre fina, antes sarcástica, sobre a burguesia. flamenga, ou de qualquer outra parte. esse é um dos traços fundamentais da obra de brel e que esteve na origem de algumas das suas melhores canções.

'les remparts de varsovie' recupera precisamente esse espírito, mordaz e terno.



um dos heroísmos destes dias é resistir ao cinismo vigente, sem que essa resistência seja ele própria um acto de cinismo.

discos para o resto da vida [7.3.]
(1977) [les marquises], jacques brel

o aeroporto como metáfora da separação.
a canção faz referência a um dos maiores sucessos de gilbert bécaud ('dimanche à orly'), mas, em vez da aventura que os aeroportos representam nesse tema, a canção de brel é exactamente o inverso - os aeroportos como lugares de nó na garganta.

em conversa com um amigo, brel dá, porém, outra explicação: Il s'agit de deux amants qui se séparent, mais surtout d'une métaphore de la Vie et de la Mort. D'un être qui sent sa vie lui échapper; le jour où, par exemple, il décide de partir se faire soigner. Et l'avion se pose à Orly! Dernier aéroport, pour un dernier voyage...

(esta é uma das canções em que brel utiliza um dos seus recursos linguísticos preferidos - o advérbio de modo, no caso infiniment, que, aliás, viria a dar título a um disco de sucessos editado há uns anos)

Ricardo Arjona - El Amor [2011]

discos para o resto da vida [7.2.]
(1977) [les marquises], jacques brel

brel nunca escondeu a sua aversão pela hipocrisia dominante no mundo da religião, ele que nasceu e cresceu rodeado dela.

no último disco, perante a morte que já sabia perto, fez questão de acertar contas com o 'bom deus'.

toi, toi, si t'étais l' Bon Dieu
tu n'serais pas économe
de ciel bleu
mais tu n'es pas le Bon Dieu
toi, tu es beaucoup mieux
tu es un homme

discos para o resto da vida [7.1.]
(1977) [les marquises], jacques brel

em 1977, brel interrompeu um silêncio de dez anos para gravar, em paris, aquele que viria a ser o seu testamento musical. morreu passado um ano, aos 49, sendo sepultado nas ilhas marquesas, onde passara esses últimos tempos de vida.

as suas grandes - enormes - canções não estão aqui.
estas são quase todas canções de despedida, de quem gostou muito de viver.

le coeur est voyageur
l'avenir est au hasard







penso que nunca tinha visto um órgão/reunião tão representativo e diversificado como o Conselho de Estado que hoje está reunido.
não sendo perfeito (só tem uma mulher, por exemplo), é, porém, um excelente exemplo. quer para a política, quer, por exemplo, para a actividade mediática.

 *

ao fim de meia hora de reunião do Conselho de Estado, o BCE publicava no site a intervenção do seu presidente naquele órgão. temos muito que aprender.

Tiago Bettencourt - Absolute Beginners [2016]

Bob Dylan - Melancholy Mood [2016]

discos para o resto da vida [6.4.]
(1968) bookends, simon & garfunkel

estávamos em 1968 e até pareceria mal se o disco não tivesse qualquer coisa de psicadélico. a que nem falta um excerto de 'sound of silence'.

Marisa Monte, Rodrigo Amarante, Devendra Banhart - Nu com a Minha Música [2016]

Momus - Absolute Beginners [2014]

discos para o resto da vida [6.3.]
(1968) bookends, simon & garfunkel

neste disco está uma das mais belas canções de sempre - america.
(a produção da versão original é digna de ser ouvida em condições que o youtube não suporta).
canção que deu origem, aliás, a uma das mais fabulosas versões - a de david bowie, num concerto em nova iorque, após os atentados do 11 de setembro.



M Ward - I'm Listening [2016]

Saint Etienne - Absolute Beginners [2011]

discos para o resto da vida [6.2.]
(1968) bookends, simon & garfunkel

'overs' é sobre o tema mais corriqueiro das canções de amor...
se dúvidas houvesse, paul simon demonstra aqui como é um compositor/autor de primeira água.
(o som não é grande coisa... inversamente proporcional à interpretação, aliás).

we're just a habit, like saccharine
and I'm habitually feelin' kind of blue
but each time I try on the thought of leaving you
I stop, I stop and think it over.

Nico - These Days [2001]


e as saudades que eu já tinha do nagorno karabakh?

discos para o resto da vida [6.1.]
(1968) bookends, simon & garfunkel


a time it was, and what a time it was, it was
a time of innocence, a time of confidences
long ago it must be, I have a photograph
preserve your memories, they're all that's left you

os simon and garfunkel são como aquelas pessoas confiáveis, tão confiáveis que nos esquecemos delas a maior parte do tempo. no caso deles, esquecemos - parece-me - a enorme influência em muita da música que ainda hoje se faz. e, principalmente, esquecemo-nos de os ouvir.

'bookends' é um disco muito especial.
no lado a, é um disco conceptual - ao longo de pouco mais de 15 minutos, acompanhamos a vida, do nascimento à velhice.
no lado b, estão alguns canções que sobraram da banda sonora de 'the graduate'.

esta semana vou recordar apenas o lado a. sim, 15 minutos que fazem muita diferença na história da música.

Amar alguém

Amar é como o prazer de conseguir estar sozinho - mas melhor. Amar é o prazer de descobrir continuamente que há alguém com quem se quer passar o tempo todo, incluindo o tempo que se quer passar juntos e o tempo que se quer passar sozinho.
Amar é um casamento de solidões que, gozando o prazer da juntidão, mesmo assim não prescinde dos prazeres de duas solidões juntas, estejam momentaneamente separadas ou reunidas.
Amar alguém é uma coisa egoísta que só nos faz bem. Mas só se a pessoa amada nos contra-ama também. Ser amado alivia muito a loucura de amar e de ser obrigatoriamente infeliz por causa disso.
Amar e ser amado é a melhor sorte que se pode ter. Não são milagres que aconteçam por acaso. É preciso trabalhar com leviandade - por muito cheio de amor que o coração esteja - para que esses milagres, facílimos, comecem a habituar-se a acontecer regularmente.
Amar alguém é um alívio: é poder deixar de pensar que cada um de nós é marginalmente mais importante do que qualquer outra pessoa que nasceu nesta vida e neste planeta.
Amar alguém é um baluarte contra o mundo, um salvo-conduto, uma casa aonde não só se pode regressar como ficar fechado dentro dela, sem precisar de sair.
Amar alguém é a única, verdadeira distracção. Os que não amam - muitos porque têm medo de se entregarem - chamam obsessão ao amor sem saber que o amor é o grande apagador de insignificâncias e a única maneira de fazer coincidir a alma e a atenção em duas vidas.

{Miguel Esteves Cardoso, Público, 30 de Março de 2016

há uns anos tentei fazer isto. e ainda hoje me agrada a ideia, comentar a actualidade com música.
a economist fá-lo assim, só música sem comentários, coisa para pessoas inteligentes, perdão, cultas. que conseguem relacionar cada canção com o tema. não seria possível em muitos países...

duas perplexidades:
- só numa lista assim podemos encontrar hoje em dia nomes como o de jacques brel, noel rosa, misturados com village people e stone roses;
- além de ter a lista no spotify, a economist diz que a lançou em cd e classifica a coisa de inovadora (claro que amanhã, 2 de abril, vou ver se esta novidade de hoje se mantém...).

spotify: https://play.spotify.com/user/theeconomistplaylist/playlist/4cTXZhpL7z3I1wEKsLYFRw

[act.]
ora bolas, estes gajos no economist são tão certinhos que nem mantêm uma mentira umas horitas.



discos para o resto da vida [5.5.]
(1988) the trinity session, cowboy junkies

em 'trinity revisited', ryan adams toma conta de '200 more miles', um dos originais dos timmins.