[tempos modernos]
estou no meu local de trabalho e o telemóvel toca para me avisar que o meu carro está estacionado no local de trabalho e que demorarei cerca de 5 minutos para uma reunião que tenho agendada no meu local de trabalho. isto, claro, se seguir pela elias garcia.
"que vivas tempos interessantes" parece ser uma maldição chinesa que os chineses não usam. que a cultura ocidental atribuiu, vá lá saber-se porquê, aos chineses.
nos "tempos interessantes" acontecem coisas, quebra-se a tranquilidade dos dias, é de esperar o inesperado.
talvez sejamos injustos com a História - porque, provavelmente, no longo prazo as coisas são sempre assim -, mas todos sentimos que os últimos anos têm sido desses: interessantes, especialmente interessantes.
veja-se: na última metade do século XX também aconteceram coisas. recuperou-se e bem de uma guerra, houve explosões de natalidade e criatividade, houve tiranias que soçobraram com simples quedas de muros. sim, aconteceram coisas, mas de alguma forma elas faziam sentido. era a eterna luta do bem contra o mal, com vitórias sucessivas de parte a parte, mas sempre com a grande vitória do bem lá no horizonte.
o que o novo milénio nos trouxe foi a desagregação desse sentido da História. nada parece fazer sentido e o inesperado passou a ser tudo o que podemos esperar.
dito de outra forma, e recorrendo a murakami - os escritores de best sellers são os autores dos provérbios dos tempos modernos e, bem vistas as coisas, continuamos ainda no eterno fascínio pela banalidade da sabedoria oriental - citado pela revista flow: seja o que for de que andes à procura, isso não te chegará da forma que esperas.
[a revista flow é mensal, defende o regresso à simplicidade da vida - ou seja, a que encaremos em estado zen os "tempos interessantes" - e chega a portugal ao preço de 16 euros. os "tempos interessantes" também são isto: a simplicidade, o despojamento, são, mais que uma forma de vida, um estatuto social e os estatutos sociais, normalmente, saem caro. a enorme maioria da população do planeta, atraver-me-ia a dizer, vive de forma muito simples e com poucos recursos. e nem sabe que há uma revista - na verdade, há uma data delas - que trata dessa coisa complicada que é viver simples.]
de entre as minhas muitas fraquezas, a menor não será certamente esta pulsão para ler a avillez-com-dois-éles. esta semana:
Diante de um magnífico “lamb”, soltou com minúcia a sua bem organizada memória enquanto eu pensava em como Portugal, a nossa (infeliz) classe política, a media, a esquerda e um bom número de portugueses mal informados conhecem mal e apreciam pouco Durão Barroso, concordem ou discordem dele politicamente. Basta lembrar que Guterres só lhe falta subir a um altar tão santificado é, enquanto Durão nos é vendido quase como um celerado. Mas a esquerda é isto. Implacável e de compulsiva arrogância a decidir quem são os filhos e quais os enteados. Por preconceito, má fé ou puro ódio, sempre fulanizado, a esquerda tranca num alçapão aqueles que a estorvam, independentemente de haver ou não mérito, serviço ao país, ou de qualquer mais valia que não tenha a sua assinatura.uma pessoa lê isto e fica na dúvida: terá sido o "lamb" que lhe caiu mal? ou será a esquerda, afinal, tão mais poderosa do que pensávamos, uma espécie de deus na terra, capaz de criar "os bons" e amaldiçoar "os maus". à cautela, aposto no "lamb".
Alison Krauss - Losing You [2017 - versão de Brenda Lee, 1963]
às vezes gostava que este blogue fosse um blogue de canções de perda.
o Público, mais precisamente o Ipsilon, tem críticos de literatura (ou será de música?), que acham que toda a música que não seja clássica são "espúrios simulacros da moderna indústria de 'conteúdos' produzidos e consumidos massiva, voluntariosa e nesciamente".
talvez mandá-los foder.
tanta coisa interessante para fazer e logo haveria de dedicar um par de horas do meu fds à leitura de jornais. é uma coisa que se deve fazer de vez em quando, para aferir se as coisas ainda estão todas no mesmo sítio, se o mundo continua a girar. uma rotina higiénica, ponhamos as coisas assim.
e, sim, confirma-se, está tudo na mesma.
diria que a tal leitura de fds poderá resumir-se a um texto de uma das estrelas ascendentes - cof, cof - do jornalismo de direita. sebastião bugalho - de sua graça - descobriu que há um discreto secretário de estado que defende as exportações, os novos mercados e a captação de investimento estrangeiro.
sim, tudo isso, isso mesmo que o primeiro-ministro defende desde o dia em que tomou posse - o que até pode ser constatado no google - e que esta estrela - cof, cof - do jornalismo de direita descobriu agora, com espanto e pavor. augura-se-lhe, portanto, um futuro brilhante.
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