um dia destes, pela primeira vez em muito tempo, fiz um protesto formal pela maneira como foi tratado um assunto que acompanho profissionalmente.
aconteceu o que já esperava, mas que, no fundo, tenho sempre esperança de que não aconteça: os meus três argumentos foram imediata e liminarmente rebatidos por uma dezena deles. eu é que estava a ver mal. que eles, os jornalistas, estavam cobertos, cobertinhos, de razão.
por coincidência, nesse dia, as redes sociais, em especial o twitter, incendiaram-se com uma polémica sobre os Truques, uma página do facebook que se dedica a denunciar erros dos media portugueses.
em duas décadas de jornalismo e uma de consultoria de comunicação, talvez seja a maior perplexidade que em nim resiste: por que custa tanto aos jornalistas admitirem que erram. nestas décadas de profissão, não consigo recordar nenhum caso em que jornalistas tenham admitido que erraram. há sempre uma desculpa, ou não erraram de todo - estás a ver mal a coisa... - ou, se admitem um pequeno, quase imperceptível erro, há logo uma inesgotável panóplia de alibis. não conheço outra profissão assim...
no caso dos Truques, por exemplo, basta ler a página de vez em quando para perceber que a maioria dos erros ali apontados fazem sentido e que os jornalistas só ganhariam em reconhecê-los, emendar e tentar não repetir. e até podiam fingir que não tinham lido os Truques.
no caso com que iniciei este texto nem era preciso tanto.
estariam a bater bolas sobre os óscares, perdão, oscares, visto que é a noite deles.
estava um pouco a leste, concentrado no tamboril com pimentos que borbulhava no fogão, e só fui a tempo de perceber que era um rapaz de barbas, o que, eu sei, não quer dizer absolutamente nada, visto que rapazes de barbas no cinema são quase todos, sendo que a única excepção que interessa é o joão lopes.
mas disse ele: "espero que isso não aconteça, ainda para mais no cinema, uma indústria em crise".
finjamos que a outrora sétima arte é agora uma indústria. nem vou por aí. o que me fez tlim-tlim foi a palavra crise.
até o cinema, vejam bem, em crise. uma arte, perdão, uma indústria que movimenta milhões, nem tanto em euros, estava mais a pensar em cifrões.
nem o cinema escapa ao jargão da crise. está tudo em crise. a indústria automóvel e a instituição do casamento. os anéis de coral e, talvez, os anéis de saturno. as nações unidas, pré-guterres, bem entendido, e a confiança dos consumidores.
não há nada que não esteja em crise, nem talvez a língua portuguesa, se aquela dupla negativa quiser dizer aquilo que penso que queria dizer.
a crise tornou-se a bengala de todas as conversas. substitui, com ganho, o pigarrear de qualquer conversa. em vez de afinar a voz, ou a aparelhagem de som, com o tradicional um, dois, três, experiência, basta dizer olhem só a crise em que estamos.
a crise, verdeiramente a que interessa, é a económica, embora a da meia idade também faça mossa.
mas a crise económica, tenho andado a magicar, tornou-se significado de situação económica. ou seja, o estado normal da economia deixou ser um estado normal e passou a ser um estado de crise. a crise é, portanto, normal. ou é normal estarmos em crise.
agora, fosse economista, poderia escrever um tratado sobre isso mesmo, a ideia de que a crise económica é a normalidade da economia. ou seja, que é terrivelmente século XX a ideia de que a economia é um porco de engorda e que tem de estar a crescer.
uma utopia: o bem estar sustentado numa economia flat, que não precisa de crescer para alimentar a máquina e para nos alimentar a nós.
claro, fosse eu economista. ou não tivesse o tamboril à espera.
achava estranho que algumas pessoas pusessem likes nos posts próprios que escreviam no facebook.
compreendo-os cada vez mais e dou comigo a pensar se não deveria pôr likes apenas nos meus próprios posts. é tão raro encontrarmos alguém com quem concordemos o tempo todo. e depois vem o arrependimento: ainda ontem pus like num post deste moço, e já ele está agora a dizer disparates.
passo a citar o ponto 4.2 da acta da última reunião do condomínio, em que infelizmente não pude estar presente:
Os condóminos foram alertados para situações anormais na acomodação do lixo nos caixotes do lixo, indiferenciado, papel e plástico, por ter sido detetado incorreto manuseamento do lixo e correspondente incorreto depósito do lixo nos caixotes.
Foi apelado para o correto manuseamento do lixo e correspondente depósito do lixo nos caixotes respetivos, de acordo com o dia de recolha do lixo.
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