não recordo exactamente quando, mas foi há muito tempo. percebi que nunca enriqueceria a trabalhar honestamente. foi aí que tomei duas decisões importantes: jogar uma vez por outra no euromilhões e tentar fazer umas poupanças para os dias em que está de chuva. têm sido alguns.
não logo, mas uns anos depois, percebi que só consegue juntar muito dinheiro quem já tem muito dinheiro. quer dizer, só os ricos podem enriquecer.
ainda mais tarde, percebi algumas das razões por que os ricos são cada vez mais ricos. uma delas é porque não pagam impostos ou pagam de uma forma muito desproporcional face ao que têm. e o verbo é mesmo esse.

não acredito em revoluções nem em grandes mudanças, apesar de os últimos anos me terem surpreendido. mesmo assim, apoio tudo o que possa ser feito, ou tentado, para equilibrar a distribuição a riqueza à face da terra.

claro que preferia ter nascido rico, ou viver à sombra de ricos, para agora estar aqui aos berros.

que o fulaninho escreva uma javardice-livro com histórias de alcova contadas por pessoas que entretanto morreram, cela va de soi, está-lhe no sangue, é da mais absoluta falta de carácter.
noto, porém, que na biografia do fulaninho está a direcção do mais influente jornal português durante duas décadas por inteiro. e isso dá que pensar.

The Beatles - Boys [1964]



as naked versions das canções de lloyd cole do período 83-96 têm a surpresa, admito que nem para todos, de constatar quão interessantes são as suas canções do primeiro período a solo. mesmo que os hinos continuem a ser os da fase commotions, como é o caso desta [a partir do minuto 3'25, claro].

discos para o resto da vida [19.5.]
(1992) eu que me comovo por tudo e por nada, vitorino



vitorino - e se eu não te amar mais


li algures que esta é a canção que ele não gosta (porque não consegue) de cantar em público.

uma das cenas mais divertidas do livro é quando o sujeitinho se cruza com o outro e o outro lhe vira a cara. também estive lá. tinhamos os nossos nomes marcados para a mesma mesa - o raio do metier... - e fiz aquele gesto de cortesia de quem se prepara para cumprimentar. virou-me a cara e, ao contrário dele, nem sequer me surpreendi. acabámos em mesas separadas.
a cena repetir-se-ia uns meses depois, no lançamento de um livro e numa altura em que era suposto eu estar ferido de morte. o livro era sobre isso mesmo, aliás. o sujeitinho estava encostado a uma coluna e fiz questão de o olhar nos olhos. como quem diz: ganhaste e, vê lá, cumprimento-te como quem reconhece a derrota. o sujeitinho camaleonou-se e fundiu-se com a coluna, fingindo não me ver.
sou péssimo observador, concluo hoje. não reparei então que quem estava ferido de morte, e acossado, era ele.

discos para o resto da vida [19.3.]
(1992) eu que me comovo por tudo e por nada, vitorino

vitorino em fase pós-alentejo. todo ele boleros, tangos, valsas, fados.



vitorino - tango do marido infiel numa pensão do beato

Mika - L'Amour Fait Ce Qu' il Veut [2015]

discos para o resto da vida [19.2.]
(1992) eu que me comovo por tudo e por nada, vitorino

lobo antunes escreveu crónicas em forma de poema, cheias de crueza e ternura. retratos de algum marialvismo.



vitorino - bolero do coronel sensível que fez amor em monsanto