em frente à porta há outra porta. para lá da outra porta, alguém sentado na mesmo posição.
só pode ser pelo alinhamento das portas. talvez também pela luz filtrada.
um daqueles momentos, não chega ao segundo sequer.
a memória.
já estive neste sítio. num sonho, numa outra vida, numa daquelas fracções em que nos desmaterializamos mas logo regressamos à Terra, e temos a sensação de que tudo está igual, apesar de algo ter acontecido na nossa milionésima ausência.
(lembras-te? quando conduzes na recta da auto-estrada e tens a sensação de que te ausentaste por um breve instante, tudo poderia ter acontecido, mas nada aconteceu, porque talvez nada possa acontecer em tão breve tempo...)
tento identificar um rosto, um som, um odor. nada. só o alinhamento das portas, como uma imagem impressa na memória. resisto a consultar o telefone, com receio de a fotografia lá estar.
já aqui estive, sem que alguma vez aqui tenha estado.
Canções para o resto da vida [14]
Há discos em que tropeçamos por acaso e nos ficam para a vida.
'Invariable Heartache' surgiu com a assinatura de Kort, que mais não é que a colaboração de Kurt Wagner (dos Lambchop) com Cortney Tidwell.
No disco, recriam uma série de canções de uma obscura editora de country, propriedade do avô de Cortney e para a qual cantava a mãe.
Há canções muito boas (incluindo uma chamada 'Penetration'...), mas a de que gosto mais é esta divertida memória da adolescência, ainda por cima servida por um vídeo que capta em cheio o espírito da coisa.
Kort - Picking Wild Mountain Berries (2011)
We've been busy makin' merries
and pickin' wild mountain berries
'Invariable Heartache' surgiu com a assinatura de Kort, que mais não é que a colaboração de Kurt Wagner (dos Lambchop) com Cortney Tidwell.
No disco, recriam uma série de canções de uma obscura editora de country, propriedade do avô de Cortney e para a qual cantava a mãe.
Há canções muito boas (incluindo uma chamada 'Penetration'...), mas a de que gosto mais é esta divertida memória da adolescência, ainda por cima servida por um vídeo que capta em cheio o espírito da coisa.
Kort - Picking Wild Mountain Berries (2011)
We've been busy makin' merries
and pickin' wild mountain berries
naufrágios
a propósito do possível naufrágio de mais 700 pessoas no Mediterrâneo, às portas da Europa, escrevem-se alguns lugares-comuns sobre os quais conviria reflectir.
desde logo, a crítica ao facto de a UE se ter tornado uma fortaleza. poderia ser de outra forma? dito de outra maneira: teria a Europa capacidade de acolher todos os que a ela pretenderiam aceder, caso houvesse regime de fronteiras abertas?
por outro lado, aponta-se a instabilidade política gerada pela 'primavera árabe' como causa do êxodo em direcção ao norte. a primavera árabe teve mais consequências negativas que positivas, para os países envolvidos e para a macro região, em que podemos incluir a Europa. mas os famintos que aqui tentam chegar acorrem de uma realidade mais distante e preocupante: a África sub saariana, em especial uma vasta cintura de países que, há décadas, são palco de fome, doença e guerras tribais. nesse palco, sim, a Europa poderia estar a fazer mais.
e há quem registe a 'hipocrisia' - fossem eles brancos, ou europeus, e haveria lágrimas, manifs, etc. este argumento é, aliás, muito repetido. esquece, porém, um factor fundamental, seja nas notícias, seja nas emoções - a proximidade e a identificação com.
mas, é claro, o frenesim da indústria das indignações instantâneas não deixa muito tempo para pensar.
[hoje de manhã, na tsf, fernando alves concluía que, com este Mediterrâneo transformado em cemitério, "morre também uma certa ideia de Europa". não sei que ideia (ou ideal) terá fernando alves da Europa. a que tenho, dos livros de História, é a de um continente que gosta de fronteiras, de guerras territoriais, de criar pequenos estados, ou seja mais fronteiras, e que, antes de receber pacíficos cidadãos de outros continentes, teve de ir lá primeiro colonizá-los. o século XX da Europa, só para dar um exemplo, é talvez o período/espaço mais sanguinário da Humanidade, com xenofobia e outras violências a rodos. quanto ao Mediterrâneo, basta voltar aos livros de História para perceber que se trata do mais constante palco de guerra do planeta. todo o cruzamento de civilizações, seja na cultura ou no comércio, foi construído sobre/sob mares de sangue.]
e há quem registe a 'hipocrisia' - fossem eles brancos, ou europeus, e haveria lágrimas, manifs, etc. este argumento é, aliás, muito repetido. esquece, porém, um factor fundamental, seja nas notícias, seja nas emoções - a proximidade e a identificação com.
mas, é claro, o frenesim da indústria das indignações instantâneas não deixa muito tempo para pensar.
[hoje de manhã, na tsf, fernando alves concluía que, com este Mediterrâneo transformado em cemitério, "morre também uma certa ideia de Europa". não sei que ideia (ou ideal) terá fernando alves da Europa. a que tenho, dos livros de História, é a de um continente que gosta de fronteiras, de guerras territoriais, de criar pequenos estados, ou seja mais fronteiras, e que, antes de receber pacíficos cidadãos de outros continentes, teve de ir lá primeiro colonizá-los. o século XX da Europa, só para dar um exemplo, é talvez o período/espaço mais sanguinário da Humanidade, com xenofobia e outras violências a rodos. quanto ao Mediterrâneo, basta voltar aos livros de História para perceber que se trata do mais constante palco de guerra do planeta. todo o cruzamento de civilizações, seja na cultura ou no comércio, foi construído sobre/sob mares de sangue.]
Canções para o resto da vida [13]
Ouvi esta canção pela primeira vez na voz encantatória de Elizabeth Fraser, dos This Mortal Coil (1983), versão que, aliás, tirou Tim Buckley do esquecimento em que tinha caído desde a sua morte, em 1975, e que deu origem a uma catadupa de versões.
Buckley foi um dos mais criativos e torturados compositores da viragem da década de 60 para a de 70. O apelido tornou-se símbolo de tragédia, com o filho, Jeff, a optar pelo destino do pai. A completar o quadro, a intensa relação que Jeff manteve com a mesma Elizabeth que interpretou daquela forma a canção do pai...
Tragédias e coincidências à parte, esta é uma das mais extraordinárias canções da música anglo-saxónica.
A versão de Tim Buckley é a de 1968 (acústica, num programa de TV). A de estúdio (1970) tem arranjos mais psicadélicos e a letra é ligeiramente diferente.
Tim Buckley - Song to The Siren (1968)
This Mortal Coil - Song to The Siren (1983)
Did I dream you dreamed about me?
Were you hare when I was fox?
Buckley foi um dos mais criativos e torturados compositores da viragem da década de 60 para a de 70. O apelido tornou-se símbolo de tragédia, com o filho, Jeff, a optar pelo destino do pai. A completar o quadro, a intensa relação que Jeff manteve com a mesma Elizabeth que interpretou daquela forma a canção do pai...
Tragédias e coincidências à parte, esta é uma das mais extraordinárias canções da música anglo-saxónica.
A versão de Tim Buckley é a de 1968 (acústica, num programa de TV). A de estúdio (1970) tem arranjos mais psicadélicos e a letra é ligeiramente diferente.
Tim Buckley - Song to The Siren (1968)
This Mortal Coil - Song to The Siren (1983)
Did I dream you dreamed about me?
Were you hare when I was fox?
Canções para o resto da vida [12]
Há canções, às vezes só fragmentos, outras vezes discos inteiros, os objectos até, que nos remetem sem apelo para momentos precisos das nossas vidas. Locais, tempos, pessoas. Fotografias, na verdade.
É assim com o vinil, que nem sequer tenho actualmente, de LC, o segundo disco dos Durutti Column, que as enciclopédias gostam de catalogar como pós-punk, o que não quer dizer rigorosamente nada, nem consegue transmitir a enorme influência que esta música teve naquela altura (apesar de nunca ninguém ter feito nada exactamente assim).
The Durutti Column - Never Know (1981)
Never known
I cry in my sleep
Sometimes you stay
É assim com o vinil, que nem sequer tenho actualmente, de LC, o segundo disco dos Durutti Column, que as enciclopédias gostam de catalogar como pós-punk, o que não quer dizer rigorosamente nada, nem consegue transmitir a enorme influência que esta música teve naquela altura (apesar de nunca ninguém ter feito nada exactamente assim).
The Durutti Column - Never Know (1981)
Never known
I cry in my sleep
Sometimes you stay
/ it's strange, it never feels the same
a lover estranged from a lover
by now i should know how to recover
is time the enemy a stranger
here we go again
i believe your truth in that i'm useless
but what you think be not my business
now you're the enemy, just a friend
here we go again /
http://timeoutjmf.blogspot.pt/2015/04/scott-matthew-this-here-defeat.html
a lover estranged from a lover
by now i should know how to recover
is time the enemy a stranger
here we go again
i believe your truth in that i'm useless
but what you think be not my business
now you're the enemy, just a friend
here we go again /
http://timeoutjmf.blogspot.pt/2015/04/scott-matthew-this-here-defeat.html
a time out (declaração de interesses: sou amigo dos gajos) criou um paradigma. uma lisboa onde tudo está a acontecer. não foi a time out que transformou lisboa, mas a time out ajuda a mudar a imagem de lisboa.
a capa desta semana é sobre tudo 'o que está a ferver' na cidade. ou seja, é um guia de fuga para os lisboetas que gostam de lisboa, mas também gostam de sossego. sinceramente, começa a não haver paciência para passeios em rebanho à beira tejo, restaurantes caríssimos em que só se consegue jantar por turnos, esplanadas sem lugares para sentar, espaços verdes e jardins tipo metro em hora de ponta...
a edição desta semana da time out é, pois, um desafio a todos os que gostam mesmo de lisboa: descubram, ou inventem, a vossa própria cidade. na vossa rua, no bairro do vizinho, ou numa lisboa sempre por descobrir que ainda há.
(isto nada tem a ver com o debate sobre o alegado excesso de turistas em lisboa. gosto de turistas.)
Canções para o resto da vida [11]
Certo. O amor que não está dá sempre boas canções. E quando está?
Algumas das melhores canções dos Beach Boys não são tão Beach Boys quanto esta.
REM - At Your Most Beautiful (1998)
I've found a way to make it
I've found a way
A way to make you smile
I read bad poetry
Into your machine
I save your messages
Just to hear your voice
You always listen carefully
To awkwards rhymes
You always say your name
Like I wouldn't know it's you
At your most beautiful.
At my most beautiful
I count your eyelashes secretly
With every one, whisper I love you
I let you sleep
I know you're closed eye watching me
Listening
I thought I saw a smile.
Algumas das melhores canções dos Beach Boys não são tão Beach Boys quanto esta.
REM - At Your Most Beautiful (1998)
I've found a way to make it
I've found a way
A way to make you smile
I read bad poetry
Into your machine
I save your messages
Just to hear your voice
You always listen carefully
To awkwards rhymes
You always say your name
Like I wouldn't know it's you
At your most beautiful.
At my most beautiful
I count your eyelashes secretly
With every one, whisper I love you
I let you sleep
I know you're closed eye watching me
Listening
I thought I saw a smile.
what are you looking at?
Esta, e não aquelas ideias profundas sobre política e media, é a minha frase preferida de House of Cards. Sim, para onde estamos a olhar? não era suposto vermos tudo aquilo.
Canções para o resto da vida [10]
Paulinho da Viola é autor de algumas das mais belas canções brasileiras. Algumas delas pensamos, aliás, que são de Chico Buarque e de outros cantores que as tornaram famosas.
Este samba, muito popularizado por Marisa Monte, é uma dessas. Por mais que se ouça, não se entende se é uma canção de alegria ou tristeza. E depois há aqueles segundos de suspensão antes do verso da "pausa de mil compassos"... Fabuloso.
Paulinho da Viola e Marisa Monte - Para Ver as Meninas (1971-2000)
Silêncio por favor
Enquanto esqueço um pouco
a dor no peito
Não diga nada
sobre meus defeitos
Eu não me lembro mais
quem me deixou assim
Este samba, muito popularizado por Marisa Monte, é uma dessas. Por mais que se ouça, não se entende se é uma canção de alegria ou tristeza. E depois há aqueles segundos de suspensão antes do verso da "pausa de mil compassos"... Fabuloso.
Paulinho da Viola e Marisa Monte - Para Ver as Meninas (1971-2000)
Silêncio por favor
Enquanto esqueço um pouco
a dor no peito
Não diga nada
sobre meus defeitos
Eu não me lembro mais
quem me deixou assim
uma série de tv que gosta de livros. uma biblioteca pública que gosta de séries de tv.
uma série de tv que gosta de música: A (Nearly) Comprehensive Guide To The Music Of 'Mad Men'
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