o trabalho jornalístico, especialmente o televisivo, visa hoje quase em exclusivo "intimidar alguém de modo a provocar-lhe um discurso impreciso e desconexo." joão lopes chama-lhe, com propriedade, "estupidez moral".

David Bowie - America [20.Out.2001 - Simon and Garfunkel 1968]

(da categoria: dos melhores primeiros versos de sempre)
(da categoria: uma das melhores versões de sempre de uma das melhores canções de sempre)


jornalistas, justiça, imagens, directos


estou a ver o episódio 3 da série 3 de newsroom.
[ao contrário do que é habitual, a série está agora ainda melhor - e os três episódios já exibidos deveriam ser obrigatórios nas escolas e redacções, especialmente pelo modo como tratam o tema do relacionamento entre os jornalista e as fontes.]
o fbi invade a redacção e vasculha apontamentos e computadores dos jornalistas, à procura de pistas sobre uma fonte acusada de espionagem.
[para quem não é entendido nestas coisas do jornalismo: as redacções, os apontamentos, os telefones e os computadores dos jornalistas são território sagrado/interdito, precisamente para proteger as fontes, um dos princípios basilares da profissão.]
a reacção da redacção é espectacular: começam a fazer todos os preparativos para interromper a emissão e divulgar em directo as buscas de que estão a ser alvo.
percebendo a armadilha, o fbi recua e suspende a operação em curso. obviamente, seria impensável que uma operação judicial daquelas pudesse ser filmada, muito menos emitida em directo.

isto, mesmo em ficção, passa-se noutro planeta que não o nosso.
o episódio passou esta semana em portugal.
o arquitecto saraiva, cujo único e exclusivo contributo para o jornalismo português (quiçá, mundial - daí a candidatura expontânea ao Nobel) foi a invenção do saco de plástico, viu hoje reconhecido o seu mérito de forma derradeira e sem margem para dúvida: o saco Ricardo Costa, de papel e talvez amigo do ambiente, desfaz-se ao primeiro toque, deixando os leitores do expresso de cócoras a apanhar papel do chão. uma posição, no mínimo, deselegante para os frequentadores do jornalismo de maior peso a nível nacional, talvez mundial.

Elvis Presley - If I Can Dream [1968]

(the answer is blowin' in the wind, dude)

estes dias têm sido óptimos para limpar o facebook, o twitter e mais umas coisas.
por uma vida mais livre e saudável!

Kings of Convenience - Homesick [2004]
Simon and Garfunkel - Homeward Bound [1966]



but i can't stop listening to the sound
of two soft voices blended in perfection
from the reels of this record that i found

o melhor do melhor de 2014 deverá passar por aqui nas próximas semanas:



The Antlers - Palace [Familiars - 2014]

Benjamin Booker - Slow Coming [2014]

Elvis Presley - Big Love, Big Heartache [1964]

Media portugueses [modo de usar]

1. O Prof. Marcelo lê uma carta idiota e demagógica de uma alegada criança de VF Xira que terá ido ao Parlamento e viu os deputados fixados em "mulheres avantajadas".

2. A coisa é notícia porque foi o Prof. Marcelo a ler a carta - todos os dias há palermices destas nas redes sociais e, obviamente, não são notícia - e porque em Portugal se criou a ideia espantosa e perversa de que os comentadores são (e dão) notícia.
Nota 1: qualquer jornalista que tenha trabalhado no Parlamento sabe que a situação descrita na carta não é verosímil;
Nota 2: a primeira notícia (DN) utiliza como muleta uma reacção de um deputado (José Magalhães), que tem exposto nas redes sociais a sua actividade parlamentar, de uma forma, no mínimo, discutível;
Nota 3: utilizar afirmações de uma criança como fonte (como fez Marcelo e depois os media) é deontologicamente muitíssimo discutível (as crianças são fonte de notícia, e mesmo assim com mil cuidados, apenas para temas do seu interesse directo). 
3. Entretanto, um estudante de economia publica nas redes sociais uma espécie de desmentido - naquele dia e àquela hora, não houve qualquer visita de uma escola de VF Xira à AR, ao contrário do que dizia a carta lida por Marcelo. A informação baseava-se na agenda do Parlamento, que, aliás, está disponível no respectivo site.

4. A generalidade dos media reproduz a informação do estudante de economia. Nenhum dos media cumpre os serviços mínimos do jornalismo: confirmar a informação (ligar para a escola, tentar falar com profs., alunos, etc). Alguns dos media, mais espantosamente, incorporam toda a informação do estudante (que, não sendo jornalista, não tem deveres de confirmação), sem sequer citar a fonte.

5. Entretanto, alguns jornalistas ligam para a escola de VF Xira e recebem a informação do Conselho Executivo de que houve, de facto, uma visita ao Parlamento naquele dia e àquela hora. Não estava era agendada.

6. A esta hora [quinta-feira de manhã], esta informação apenas circula ainda nas redes sociais, mas é expectável que, nas próximas horas, salte para os media tradicionais.
Conclusão: há aqui muita matéria de reflexão sobre o relacionamento dos media com as redes sociais, mas esse não é o ponto fundamental. O ponto fundamental é que, em todos os momentos deste caso, foram os media, sempre os media e apenas os media, que falharam na sua missão. Isto, sim, é espantoso, significativo e muito preocupante.
o guardian está a remodelar o site e começou pela cultura.
interessante, nos bons media dos países que têm bons media, é que remodelar não significa fazer algo completamente diferente, mas sim desenvolver o que já era bom.
por isso, na nova cultura do guardian online, há tanta coisa boa e tantas pistas sobre o futuro próximo dos media, do online, e do jornalismo cultural.
gosto muito, por exemplo, da atenção muito especial que é dada à fotografia.



[Gathering Water Lilies, 1886, by Peter Henry Emerson]

The Beatles - I'm Happy Just To Dance With You [1964]

Patsy Cline - That's My Desire [1931-1962]

estamos na época das listas. lembrei-me disso porque vi alguém (alguéns) por aí a protestar contra as listas. as pessoas protestam contra as listas da mesma forma e pelos mesmos motivos por que protestaram contra o calor no tempo do calor e contra a chuva no tempo dela. as pessoas habituaram-se a protestar e fazem disso um estilo de vida. fazem disso a vida e isso é uma coisa que me faz uma confusão do caraças. porque protestar por protestar é uma coisa que ocupa tempo e até espaço e as pessoas assim ficam com menos tempo e espaço para viver. mas eu apenas registo e não protesto. quero lá saber. é o protesto, perdão, a vida delas.

mas o que eu queria mesmo era protestar contra a lista da rolling stone dos melhores discos do ano. a rolling acha que ainda determina o cânone da indústria musical, mas já não determina. também não convém dizer-lhes isso, como naquela história do fulano que está morto e ainda ninguém o avisou. até porque a rolling stone não está morta - long live rolling stone - e ainda é uma revista bem jeitosa. é aliás frequentemente melhor que as congéneres (que bela palavra) até algumas similares, já para não falar das concorrentes.

mas onde é que íamos mesmo? ah, nos u2... melhor disco do ano? get a life rolling stone.
olha, antes música para encantar camelos!


Tinariwen - Toumast Tincha [Emmaar, 2014]

Rodrigo Amarante - O Não-Pedido de Casamento [2013]
Georges Brassens - La Non-Demande en Mariage [1966]




[downton abbey - série 5]

estaremos todos a ficar suecos?

[a pergunta é interessante, mas a resposta é... nope.]



and it's a hard, it's a hard, it's a hard, and it's a hard, It's a hard rain's a-gonna fall

And what'll you do now, my blue-eyed son?
And what'll you do now my darling young one?
I'm a-goin' back out 'fore the rain starts a-fallin'
I'll walk to the depths of the deepest black forest
Where the people are a many and their hands are all empty
Where the pellets of poison are flooding their waters
Where the home in the valley meets the damp dirty prison
And the executioner's face is always well hidden
Where hunger is ugly, where souls are forgotten
Where black is the color, where none is the number
And I'll tell and speak it and think it and breathe it
And reflect from the mountain so all souls can see it
And I'll stand on the ocean until I start sinkin'
But I'll know my song well before I start singing
And it's a hard, it's a hard, it's a hard, and it's a hard It's a hard rain's a-gonna fall


[bob dylan 1962; bryan ferry 1973-2007]