o consolo do spam

comentário que me surgiu num post que lá dentro tem apenas um vídeo do youtube:
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a praia é linda, mas tem um caminho de pedras, disseram-te. e tu, sol no zénite, lanças-te na estafada metáfora do caminho das pedras e anotas mentalmente duas canções alusivas.
pára. por uma vez, para sempre, pára. entende que uma praia é uma praia, um olhar apenas um olhar, e que provavelmente tudo começará a fazer muito mais sentido se deixares de insistir em dar um sentido a tudo.
i took a train down south from chicago all the way to memphis, searching for a love and a place i can call my own

Venho do mundo dos jornais e é daí que retiro a lição: o problema dos jornais em Portugal, media em sentido lato, não está, nem nunca esteve, nas redacções, do mais imberbe dos estagiários ao mais vetusto director. Erram todos os dias, é certo, talvez mais do que seria expectável. Mas todos os dias muitos também se excedem em dedicação e em profissionalismo, com resultados. Não, nos jornais, o problema não está, ou não está prioritariamente, nas redacções, mas sim acima, em quem detém e gere o capital.

E no país é exactamente a mesma coisa. Portugal não se sabe gerir. Trabalhar, trabalhamos. Até mais que a media. De certa forma, até melhor que a média, se tivermos em conta que todo o trabalho é realizado num quadro de irracionalidade (e, já agora, de ilegalidade). Exemplo: não conheço ninguém, funcionário das muitas empresas de sucesso que por aí há, que trabalhe apenas as horas estipuladas no contrato. Não, trabalham sempre mais, muito mais, e sem qualquer pagamento extra.

A tese que nos impingiram na crise que atravessamos é a de que vivemos acima das nossas possibilidades. E quando nos dizem isso dirigem-se especificamente àquilo a que se convencionou chamar de classe média, mas que, na prática, engloba todos aqueles que não têm capital suficiente para dele retirar sustento. Ou seja, quase todos nós.

De fora fica quem detinha o capital antes da crise e que, apesar dela, não apenas o manteve, mas o aumentou. Da crise em que vivíamos acima das nossas possibilidades, os ricos estão a sair mais ricos e a tal classe média - quase todos nós - está a sair mais pobre.

Isto é hoje evidente em todo o mundo - há por aí um livro que o explica muito bem.

Em Portugal, como em todos os países de estado fraco (paquidérmico, mas fraco), os mais ricos não apenas ficaram ainda mais ricos, mas ficaram impunemente ricos. Todas as actuações à margem da lei foram e estão a ser premiadas - os mais ricos, mesmo quando aparentemente caem em desgraça, regressam a casa com os bolsos a abarrotar e ainda mais ricos que anteriormente.

O mais fantástico desta crise é precisamente isso: o de estar, na prática, a premiar aqueles que, abusando das regras instaladas, acumularam riqueza de forma ilegítima.

Obviamente, isto é profundamente errado. Uma dupla injustiça sobre quem não tem outro remédio que não seja trabalhar para sobreviver. Porque tem que pagar o seu sustento, mas também o sustento do sistema do qual os privilegiados abusam.
you and i
we were captured
we took our souls
and we flew away
we were right
we were giving
that's how we kept
what we gave away

the nearness of you

a canção é de 1938. e não se percebe como insistiram em escrever canções de amor depois disto.



aproveitei para arrumar os nokia. são uma dezena, que não os contei. guardo-os por afecto museológico - agrada-me a ideia de que um dia alguém lhes resgate diálogos doces e amargos, agendas secretas, quem sabe? uma foto de ti feliz.

os nokia foram uma fase da minha vida. eram objectos lindos, sem arestas, e sobretudo muito fiáveis. com eles, podíamos fazer planos sem o risco de nos falharem, sabíamos que estavam sempre ali mesmo quando não dávamos por eles, eram resistentes. resilientes, como agora se diz. não prometiam muito, mas o que prometiam faziam. foram dias de felicidade serena, com os nokia.

(falta-me um, que me roubaram no coliseu, à entrada para um concerto, era ainda quase novo, o nokia e eu. não tínhamos segredos.)

depois vieram os blackberry e o que era seguro deixou de o ser. os blackberry prometiam muito e às vezes davam, outras vezes não. tão depressa me maravilhavam como me deixavam ficar mal e me decepcionavam e me irritavam. os blackberry faziam-me o impensável - desligavam-se sozinhos, por capricho. e apesar de tudo não guardo má memória dos blackberry, se de memória se pode falar quando o passado acabou de passar e ainda nem sabemos muito bem o que fazer com ele.

e agora tenho um iphone.

bella mia
talmente bella da fare un'estetica
l'arte farò e studieró
la maniera di fare l'erotico
senza guastare la tua estetica

ma la passione è un'altra grammatica

luar de julho


assuntos acerca dos quais tenho opinião, nada coincidente com a da manada, mas sobre os quais não vou escrever: o grammy do carlos do carmo, os estagiários nos jornais. além, é claro, da existência de deus. 

Receita do amor louco

Dans un boudoir introduisez un coeur bien tendre
Sur canapé laissez s'asseoir et se détendre
Versez une larme de porto et puis mettez vous au piano
Jouez Chopin, avec dédain,
Égrenez vos accords et s'il s'endort alors là jetez le dehors

Le second soir faites revenir ce coeur bien tendre
Faites mijoter trois bons quart d'heure à vous attendre
Et s'il n'est pas encore parti soyez en sûr c'est qu'il est cuit
Sans vous trahir, laissez frémir
Faites attendre encore et s'il s'endort alors là jetez le dehors

Le lendemain, il ne tient qu'à vous d'être tendre,
Tamisez toutes les lumières et sans attendre,
Jouez la farce du grand amour, dites jamais, dites toujours
Et consommez sur canapé
Mais après les transports, ah s'il s'endort alors là foutez le dehors

Real Estate - Atlas


How might I live to betray you?
How might I live to see the day?
How might I live to say you're not the one I love?
How might I find the words to say?

sophia



De Sophia tenho duas memórias.
Dos "Contos Exemplares", que li obrigatoriamente no liceu e com os quais percebi até onde pode ir a literatura.
Da evocação que dela fez Francisco Sousa Tavares, no Diário de Notícias, numa série de memórias interrompida com a sua morte em 1993 (o texto sobre Sophia foi inesperadamente o último, um mês antes do seu desaparecimento):
"A total novidade de uma poesia, que longe das endeixas mais ou menos piedosas, do 'toi et moi', atingia a altitude metafísica do mistério do mundo e de Deus, da beleza das coisas e do rumor incessante do mar".
Lorsque le sucre d'orge
Parfumé à l'anis
Coule dans la gorge d'Annie
Elle est au paradis


Annie aime les sucettes
Les sucettes à l'anis
Les sucettes à l'anis
D'Annie
Donnent à ses baisers
Un goût ani-
sé lorsqu'elle n'a sur la langue
Que le petit bâton
Elle prend ses jambes à son corps
Et retourne au drugstore

Pour quelques pennies Annie
A ses sucettes à l'anis
Elles ont la couleur de ses grands yeux
La couleur des jours heureux