gosto especialmente da expressão "pavorosa bibliografia".

discos para o resto da vida [14.2.]
(1966) the rolling stones, aftermath

ah... as grandes baladas acústicas dos stones!
(e lá está o maluco do brian jones na cítara, antes de se atirar à piscina).



the rolling stones - lady jane
What do we need to keep us going?
What do we crave at the end of the day?
Mysteries keep piling like dirty clothes in the corner
You never thought you'd give up
But you're beginning to wonder
When through the gloom you hear
A familiar voice say
A few simple words
Your heart is send soaring
You're able to face another day
Through the anger and the laughter
You know that you matter
And somebody out there cares.

Chris Farlowe - Out Of Time [1966]

discos para o resto da vida [14.1.]
(1966) the rolling stones, aftermath

gosto especialmente de momentos destes. momentos de transição. quando já não és o que foste, mas ainda não és o que haverás de ser (e sai prémio la palice / lili caneças para esta tirada...).
'aftermath', o quarto disco dos rolling stones e o primeiro apenas com músicas deles, é um desses momentos. quase tudo o que eles irão fazer nas próximas décadas já aqui está, embora algumas dessas coisas ainda não sejam totalmente explícitas.

um dos motivos pelos quais gosto muito deste disco é pelo facto de dele constar uma das melhores canções de sempre dos stones.
há duas versões. uma com xilofones, estalinhos de dedos e cítaras (o maluco do brian jones...) e outra com orquestra sinfónica e coro desvairado (regravação de 71, inspirada na versão de chris farlowe).




the rolling stones - out of time

(e se o fizéssemos vestidos?)

discos para o resto da vida [13.4.]
(1971) josé afonso, cantigas do maio

interpretar um tema popular desta forma, simples e rigorosa, era naquela altura também um acto de resistência. estávamos no fim de um regime que tinha abastardado boa parte da cultura popular, promovendo ranchos folclóricos e outras manifestações caricaturais dessa cultura.



josé afonso - milho verde


extraordinária, extraordinária é a extraordinária coincidência das pequenas polémicas do josé rodrigues dos santos na televisão pública com o lançamento de cada um dos seus livros. isso é que é extraordinário.


estava aqui a escrever uns 2500 caracteres sobre o último livro da patti smith.
gosto moderadamente dela como música e muito como escritora. o que está bem, ela acha o mesmo.

discos para o resto da vida [13.3.]
(1971) josé afonso, cantigas do maio

há quem viva sem dar por nada
há quem morra sem tal saber



josé afonso - mulher da erva

página do arq. saraiva no sol desta semana. i rest my case.

discos para o resto da vida [13.2.]
(1971) josé afonso, cantigas do maio

josé afonso era um compositor notável, especialmente na forma como 'reinterpretava', em quase todas as canções, o cancioneiro popular.
neste disco, a essa genialidade aliou-se outra do mesmo calibre, a de josé mário branco, na orquestração/produção.



josé afonso - maio, maduro maio


alguns jornalistas, de tv, jornais, simplesmente não percebem que, ao utilizarem a expressão 'geringonça' para se referirem ao governo ou à maioria que o apoia, apenas estão a depreciar-se a si próprios. a colocarem-se ao nível de um jornal humorístico, de um tablóide, enfim, de um vasco pulido valente.

a educação é o principal mecanismo de elevador social.
isso é evidente para quem vê nesse instrumento a única possibilidade de melhorar de vida; e é também evidente para quem vê aí uma ameaça.
é, portanto, um campo de batalha ideológica, talvez o campo em que as partes e os objectivos de cada uma são mais transparentes.

discos para o resto da vida [13.1.]
(1971) josé afonso, cantigas do maio

frequentemente considerado o melhor disco de sempre da música portuguesa.
ou a demonstração plena de que josé afonso foi muito mais que o cantor de intervenção no sentido redutor do termo.


josé afonso - coro da primavera


- sim, a entrevista a que MEC se refere na crónica de hoje no Público é esta, que citei em fevereiro de 2015.
- não, aquela ideia maluca da marisa matias de incluir o surf nos currículos escolares - que toda a direita intelectual e política das redes sociais está a gozar desde ontem - não é nova. é da campanha eleitoral das europeias (2014!). já agora, eu disse que a ideia era maluca? 'tava a brincar, claro.

discos para o resto da vida [12.5.]
(1966) the beach boys, pet sounds

It starts with just a little glance, now
Right away you're thinkin' 'bout romance, now
You know you ought to take it slower
But you just can't wait to get to know her

A brand new love affair is such a beautiful thing
But if you're not careful think about the pain it can bring
It makes you feel so bad
It makes your heart feel sad
It makes your days go wrong
It makes your nights so long

You've got to keep in mind love is here today
And it's gone tomorrow
It's here and gone so fast

Right now you think that she's perfection
This time is really an exception
Well you know I hate to be a downer
But I'm the guy she left before you found her

Well I'm not saying you won't have a good love with her
But I keep on remembering things like they were

She made me feel so bad
She made my heart feel sad
She made my days go wrong
And made my nights so long



beach boys - here today




e depois há aquela malta que nem nuns rabiscos sobre uns concertos da adele consegue evitar falar da geringonça. inacreditável!

discos para o resto da vida [12.4.]
(1966) the beach boys, pet sounds

as canções dos beach boys estão longe, porém, de serem meros artifícios de estúdio.
'caroline, no', na sua simplicidade, é um excelente exemplo. uma das preferidas de brian wilson.
os sons finais estão no disco original.


the beach boys - caroline, no

La Bien Querida - Muero De Amor [2015]



o Novo Banco é o 'patrocinador oficial da Seleção'.
há aqui um sentido de humor qualquer que me escapa.

Charles Bradley - Changes [2016]

discos para o resto da vida [12.3.]
(1966) the beach boys, pet sounds

esta talvez seja a canção pop acerca da qual mais se escreveu ao longo das décadas. e, no fundo, não há muito a explicar - há coisas que só podem nascer em sonhos, e há pessoas raras que conseguem materializar sonhos.
      

the beach boys - good vibrations



(versão de 1976, que junta o som e a imagem da digressão desse ano, com a festa de aniversário de brian, à qual compareceu a família maccartney. a canção, como se ouve sobrevive, a tudo, mesmo à falta de toda a exuberância de estúdio da versão original. brian, em palco e na vida real, estava num dos seus momentos de "ausência")

discos para o resto da vida [12.2.]
(1966) the beach boys, pet sounds

brian wilson será um dos raros génios loucos acerca dos quais existem provas provadas das duas partes da equação.

o facto de o nome de deus surgir no título será irrelevante para o caso, mas se há canção que demonstra a existência de um deus bom, misericordioso e com um extraordinário gosto musical, essa canção é esta.



the beach boys - god only knows

Marisa Monte - Cama [2016]



na comunicação - como no design - uma regra básica, muitas vezes esquecida:
a melhor maneira de resolver o que é irrelevante/prejudicial/feio é dar-lhe destaque.

The Rolling Stones - Stupid Girl [1966]

o estado do jornalismo | dois takes

take 1.

liga-me o jornalista fulano de tal, porque está a escrever sobre XYZ e quer saber se há algum material escrito sobre XYZ para que possa informar-se.
digo-lhe que sim. vou à net, procuro nos dois sítios públicos em que está uma apresentação PPT sobre o tema XYZ, descarrego o documento e envio ao jornalista. agradece, sinceramente.

dá-se o caso de: o jornalista ser um sénior, que trabalha num dos jornais do top 3 de vendas em portugal; o jornalista ser um dos poucos jornalistas portugueses que se apresentam, há anos, como especialista em XYZ; o jornalista ter estado na divulgação pública da mencionada apresentação PPT sobre o tema XYZ, que ocorreu em fevereiro.

take 2.
e depois há isto.

Dory Previn - Did Jesus Have a Baby Sister? [1974]

discos para o resto da vida [11.5.]
(2006) camera obscura, let's get out of this country



camera obscura - dory previn

se o amor traz sofrimento / vou sofrer até o fim

David Bowie & Marc Bolan - The Prettiest Star

discos para o resto da vida [11.4.]
(2006) camera obscura, let's get out of this country

mas são as canções dos camera obscura grandes canções? claro que não. apenas pequenas peças de divertimento. o que nada tem de mal, antes pelo contrário. uma espécie de grupo de baile.



camera obscura - let's get out of this country


no espaço público, tudo é significativo. o que se diz e o que se cala. os acontecimentos e os não acontecimentos.
e é por isso que este 10 de maio é uma data de grande significado para a cidade de lisboa.
um "grupo de cidadãos" decidiu montar um buzinão contra as obras no centro da cidade.
ao longo de horas e horas, envolvendo meios raramente vistos, alguns media divulgaram, publicitaram, incitaram ao buzinão.
que pura e simplesmente não houve.
claro que os "grupos de cidadãos" devem estar a esta hora a tirar as suas conclusões e isso será visível nas movimentações partidárias para as próximas autárquicas.
já quanto aos media, duvido que tenham aprendido alguma coisa.

Elton John - In The Name Of You [2016]



adele, num dos primeiros concertos da digressão que passa este mês por lisboa:
i’ve been fucking shitting myself all day... bad bowel movements. i’ve had to have an imodium.

discos para o resto da vida [11.2.]
(2006) camera obscura, let's get out of this country

as canções dos camera são - claro... - quase todas canções de amor. com um característica muito peculiar - não é de todo evidente se está a chegar, se a partir. o tal do amor.



camera obscura - country mile

Lloyd Cole - Are You Ready to Be Heartbroken

discos para o resto da vida [11.1.]
(2006) camera obscura, let's get out of this country

a citação de lloyd cole, à mistura com um órgão que soa vagamente a marcha nupcial, é um dos momentos mais divertidos, e curiosamente melancólicos, da história da pop.



camera obscura - lloyd, i'm ready to be heartbroken

nesta coisa de media e tal, não há nada melhor que o NYT Living: Your Weekend Recap, que me chega ao mail todos os domingos à noite. as melhores sugestões de leitura (bom, na verdade, a malta da new yorker também se esforça por ocupar aqueles segundos que ainda me restam de descanso).

o guerreiro do público dá hoje uma sova das antigas no rentes da direita intelectual (cof, cof). e agora como resolvem os rapazola tão funda viuvez? no domínio da pura ficção, só imagino que se possam virar para o raposo.

discos para o resto da vida [10.5.]
(1967) the doors, the doors

uma banda rock a interpretar brecht/weil.
estávamos num tempo da mais completa liberdade artística.



the doors - alabama song

The Loafing Heroes - Nightsongs [2016]



uma espécie de slow music.

discos para o resto da vida [10.4.]
(1967) the doors, the doors

duas peculiaridades da música dos doors:
- a sonoridade. a guitarra, protagonista central na história do rock, está ausente, ou relegada para um plano secundário. as teclas, especialmente o órgão, tomam o seu lugar.
- a poesia. as letras de morrison eram de um recorte poético até então pouco comum no rock. a mais simples canção de amor era um poema.



the doors - the crystal ship

Sean Riley & The Slowriders - Dili [2016]

discos para o resto da vida [10.3.]
(1967) the doors, the doors

apesar de fazerem uma música bastante intelectualizada, os doors nunca se afastaram das raízes pop/rock. em todos os seus discos há referências explícitas aos blues e a outros estilos seminais.



the doors- i looked at you

Por quanta beleza em teus olhos viram.

a capa antes da capa do prince

discos para o resto da vida [10.2.]
(1967) the doors, the doors

ouvir isto, em vinil, numa cidade de província dos anos 70, era toda uma experiência...

o contexto - califórnia da segunda metade dos anos 60, ambiente universitário (os fulanos eram os primeiros grandes intelectuais do rock), consumo descontrolado de drogas - começaria daí a pouco a fazer sentido. na senda da morte de morrison (71), surgiram livros, colectâneas de poesia, filmes.

'the end' é, seguramente, o tema que melhor resume a música dos doors e que é reflexo directo das circunstâncias descritas no parágrafo anterior.



the doors - the end


os últimos dias foram férteis em análises sobre a situação política, sob o prisma do encerramento de um ciclo. após vários testes parlamentares, e muito negative wishful thinking nos media, parece ter ficado finalmente claro o quadro político em que nos movemos. e que é, com um rigor que espanta, exactamente o inverso do que se descreve neste artigo de opinião: o país a navegar em águas mansas.

discos para o resto da vida [10.1.]
(1967) the doors, the doors

na primeira vez que ouvi os doors, só conhecia os beatles e os pink floyd.
no liceu daquela altura, abria-se todo um outro mundo. porque os beatles e os floyd eram, cada um à sua maneira, música bem comportada ouvida por gente bem comportada.
quem ouvia os doors dizia-te, quase em em sussurro: já ouviste isto? como se estivéssemos a ouvir qualquer coisa de rebelde, ou quase tão ilegal como as substâncias consumidas apenas pelos que ouviam os doors.



the doors - light my fire
ouvi esta semana a mais bela canção de todo o sempre, sendo que o sempre, como o infinito, tem a dimensão que lhe quisermos dar.
a canção chama-se 'old habits' e é do novo disco dos Minta & The Brook Trout. como a canção ainda não anda por aí online (é tão linda que se calhar nunca vai estar, para não se estragar), deixo aqui outra, quase tão linda, do mesmo disco.