Márcia - A Insatisfação [2015]

(o coro mais bonito dos últimos anos da música portuguesa. o público para ler.
e aquela praia...)



Mesmo transformando em nosso o que era meu
Se és a sorte do caminho que a vida escolheu
Canta que me afina, faz-nos avançar
Premeia-me o destino por te ver dançar

Quando acordar do sono que eu escolhi
Quero ter no meu cantinho sempre mais de ti
Cada rosa, cada espinho que tanto cresceu
Mesmo quando venham pra nublar-me o céu.

Quase nada
(experimento o céu de negro que há de norte a sul)
Nunca me conforma
(prometo-me a mim mesma mais de céu azul)
A insatisfação
(temo que haja pouco pra me contentar)
Nunca me abandona
(mas nada me impede de tentar).

James Taylor + Carly Simon - Devoted To You [1977]

monday morning feels so bad
everybody seems to nag me
comin' tuesday i'll feel better
even my old man looks good
wednesday just won't go
thursday goes too slow
i've got friday on my mind

John Denver - The Gift You Are [1991]

make believe this is the first day
everything all brand new
make believe that the sun is your own lucky star
and then understand the kind of gift you are

manuel morgado, o sultão da escrita musical (!), strikes again.

(há anos que ando a dizer para não publicarem textos em negativo, ou com fundo, mas ninguém me ouve... há uma conclusão a retirar sobre o meu poder de influência, mas não contem comigo para o fazer).

[everything will turn out alright]

brian wilson é jesus cristo, que veio à terra sofrer para nos salvar.
que não tenha descambado em religião, eis a beleza maior da coisa.

Roland Barthes, Fragmentos de um Discurso Amoroso

Canções para o resto da vida [55]

Chama-se 'With My Eyes Wide Open I'm Dreaming' e volta a ser o toque de despertar no meu telemóvel.
Já esteve lá, por um ano, há uns anos.
Foi quando comprei o CD, talvez o mais valioso que tenho, literalmente. Na altura, estava esgotadíssimo e a Amazon fez-me o favor de encontrar uma edição rara. Presumo que hoje já seja mais fácil de comprar.

O tema é o terceiro do disco 'From Gardens Where We Feel Secure", que Virgina Astley lançou em 1983. E a Virgina Astley é uma coisa que só ouvindo.

[by the way, o LP original deste ainda roda cá em casa...]


Virgina Astley - With My Eyes Wide Open I'm Dreaming (1983)

Brian Wilson - Good Kind Of Love [2008]

the sun keeps on shining
he rolls around heaven above
a little bit o' lovin'
and a-kissin' and a-huggin'
that's how they fell in love

Brian Wilson - Meant For You [1995]

as i sit and close my eyes
there's peace in my mind
and i'm hoping that you'll find it too
and these feelings in my heart
i know are meant for you

meant for you
doop doo doo dooo
doop doo doo dooo
doop doo doo dooo
doop doo doo dooo

Brian Wilson - Morning Beat [2008]

hear those guitars gently strumming
hear those voices softly humming
it's hard to feel down
living in this town
but you're so far away
it's a long, long way from january
all the way to december

Brian Wilson - Gettin' In Over My Head [2004]

you hold me so close i can feel the softness of your sighs
i lose all control every time you look in my eyes
i try to be cool and take it slow but i don't know how
it's makin' me wonder if anything can stop me now

Canções para o resto da vida [54]

A canção é de uma peça de teatro, de 1929. Não conheço nenhuma versão cantada de que goste e, sinceramente, não tenho muita paciência para os cantores de 78 rpm.
A versão de Monk é de 1964.
Monk a solo é muito bom, mas também não fica nada mal com um ensemble assim, muito discreto, quase imperceptível.


Thelonius Monk - I Love You (Sweetheart of All My Dreams) (1964)

ecrã gigante, som ainda maior, pipocas & coke zero, as melhores canções de amor do mundo, pró infinito e mais além

Mika - Last Party [2015]

last party, let's party!

Canções para o resto da vida [53]

Os grandes amores acontecem assim. Não faço a mínima ideia das circunstâncias em que ouvi pela primeira vez o Horácio Silva, mas foi coisa para toda a vida, já lá vão umas décadas valentes.
Horace, filho do senhor Silva, de Cabo Verde, nunca haveria de esquecer as origens, mas é nos discos que gravou nos anos 60 que mais referências surgem ao pai et al.


The Horace Silver Quintet - The Cape Verdean Blues (1966)

The Mountain Goats - One on One, April 11th 2015, City Winery, New York

http://timeoutjmf.blogspot.pt/2015/07/the-mountain-goats-beat-champ.html

Canções para o resto da vida [52]

Primeiro o disco: 'The Melody at Night with You' foi gravado, em casa, durante um período de convalescença de Jarrett, e dedicado à mulher. Esse conjunto de circunstâncias fez com que, ao contrário do que é habitual, não haja aqui ponta de virtuosismo, mas apenas melodia que se espraia languidamente.
Deste conjunto de standards, gosto especialmente desta versão de Gershwin. Quem não quer?


Keith Jarrett - Someone To Watch Over Me (1999)

Canções para o resto da vida [51]

A versão de que gosto mais deste tema é em dueto, com Steve Swallow.
Em big band é ainda mais divertido.
Carla Bley é uma fulana extraordinária.


Carla Bley Band - Reactionary Tango (1981)

és gira e gostavas de aparecer na capa da rolling stone? tens três hipóteses:
- vestes t-shirt ou camisa sem soutien
- vestes soutien sem camisa ou t-shirt
- vês-te livre dos mamilos.

Gregory Porter - Wind Song [2013]

i try all day to not write songs that sound cliché
when i sing songs of love to you
but somehow i always do

última hora: casillas já está no porto.
segundo o relato pertinente das televisões em directo, acenou à chegada.

Robert Wyatt - Just As You Are [2007]

Canções para o resto da vida [50]

As canções de Robert Wyatt relacionam, como poucas, a razão e a emoção. Pensar o belo não é para todos e, talvez por isso, a dele é uma música muito pouco popular, simplesmente porque as pessoas não estão para isso. Uma opção tão legítima quanto outra qualquer.
Esta canção é disso um excelente exemplo. A versão é das belíssimas Unthanks, porque a voz de Wyatt não é propriamente o melhor cartão de apresentação para as suas canções.



The Unthanks - Free Will and Testament (1997-2013)

So when I say that I know me, how can I know that?
What kind of spider understands arachnophobia?
I have my senses and my sense of having senses.
Do I guide them? Or they me?

The weight of dust exceeds the weight of settled objects
What can it mean, such gravity without a centre?
Is there freedom to un-be?
Is there freedom from will-to-be?

Canções para o resto da vida [49]

Os Blondie são assim a modos que uns Velvet Underground de pechisbeque, o que certamente até agradaria a Andy Warhol. A mesma Nova Iorque, a mesma loira, os mesmos músicos apalermados e musicalmente ignorantes. Uma ligeira diferença: a seguir aos Beatles, os VU são a banda mais influente das últimas 5 décadas, os Blondie são... eh, como dizer?, isso.
Os primeiros segundos desta canção são puro disco (este vídeo é um playback, e vale a pena precisamente pelo som original dos sintetizadores cósmicos e trepidantes). Aliás, na verdade, toda a canção é disco, o punk só lhes surge na atitude e, às vezes, nas guitarras.



Blondie - Heart of Glass (1979)

Canções para o resto da vida [48]

Quando se fala de pop sofisticada, os Prefab Sprout costumam aparecer na conversa.
Quando se fala de outras coisas, também.
Esta canção sempre me pareceu interessante para ouvir ao luar num tempo destes. Pena não ter happy end, mas disso podemos tratar nós.



Prefab Sprout - We Let The Stars Go (1990)
sim, não tenho mesmo mais nada que fazer.

Bruce Springsteen - Girls In Their Summer Clothes [2007]

Ana Cañas e Nando Reis - Pra Você Guardei o Amor [2013]

desenhar no seu quadril
meus lábios beijam signos feito sinos

Canções para o resto da vida [47]

Arnaldo Jabor, um dos mais inteligentes e divertidos cronistas brasileiros, decidiu um dia escrever uma crónica de jornal, quase em jeito de poema, coisa ligeira, pura brincadeira.
Rita Lee, essa ganda maluca, viu ali a oportunidade para uma canção, também ela puro prazer. Ou será paixão?


Rita Lee - Amor e Sexo (2003)

Arnaldo Jabor, numa crónica sobre a crónica que virou canção.
cada vez me interessa menos se as pessoas são cultas, inteligentes, profissionais, pontuais, eficientes, cumpridoras, etc etc etc.
interessam-me as pessoas em que intuo bondade e carácter. lembrei-me disto quando hoje fui revendo os excertos de entrevistas com que as televisões recordaram maria barroso.

uma das fotos inéditas da clara azevedo, publicadas pelo observador.

uh johnny johnny uuuuh
life's not complete
'till your heart's missed a beat

é muito interessante [NOT] seguir o desenrolar mediático de acontecimentos como os da grécia, ainda mais desde a eclosão das redes sociais.
toda a gente se sente na obrigação de ter - pior, de dar - opinião, embora apenas uma pequena minoria se sinta de obrigação de pensar um pouco antes de o fazer.
o resultado é uma espécie de ruído branco - um tipo de ruído produzido pela combinação simultânea de sons de todas as frequências -, em que tudo se confunde e já nada tem significado por aí além.
como se todo o espaço mediático fosse atraído para um buraco negro, sufocante e aniquilante.
ou, talvez, como uma bebedeira geral. estão a ver? quando se atinge aquele grau de embriaguez e se entra em piloto automático: os gestos - no caso, as palavras - desenrolam-se automaticamente, de acordo com uma coreografia que nos é anterior e exterior, e tudo (nos) parece estar dentro da maior das normalidades.
mas não está. às vezes, saímos da coreografia, desequilibramo-nos, damos tropeções. fazemos gestos involuntários.
como na algazarra grega: um vasto conjunto de ébrios, repetindo ad nauseam os mesmos argumentos, alguns deles carentes de qualquer sentido. frequentemente, o chip de um dos bêbados baralha-se todo e saem frases sem sentido, ilações bacocas, em que ninguém repara porque, precisamente, está tudo bêbado.
o exemplo mais eloquente desse efeito é o elogio que se insiste em fazer ao exercício da democracia e à coragem dos gregos.
what? estamos a falar do pagamento de dívidas, do cumprimento de acordos. como é que a democracia ou a coragem aparecem neste filme?

Canções para o resto da vida [46]

Os Everything But The Girl foram a banda sonora de um tempo extraordinário. No final da década de 80, só rivalizavam com a série Thirtysomething, no canal 2.
Claro que houve (há, haverá) outros tempos extraordinários. Mas nem sempre os astros alinham esses tempos com a banda sonora ideal.





Everything But The Girl - Come On Home (1986)

Maria Barroso

não há que ter medo das frases feitas quando as frases feitas parece terem sido pensadas em algo ou alguém concreto.
Maria Barroso foi essencialmente a grande mulher por trás de um grande homem.
foi muitas outras coisas, mas foi a mulher de Mário Soares, e foi-o publicamente de uma forma sem igual na democracia portuguesa.
esse é um facto histórico inultrapassável, como históricas foram as circunstâncias que o moldaram.

[Milwaukee, July 5, 2015]

i've been a miner for a heart of gold

nota: este fulano andou metido no LSD nos anos 60

When I die, people will say, ‘He was the most important composer since the beginning of music.’ It’s not just a work of genius - I did things no one ever dreamed of and I set up an approach to sound that parallels universal structure.

Canções para o resto da vida [45]

A canção é de 1970 - de Rita Lee, com os Mutantes.
Marisa Monte costuma cantá-la ao vivo.
Os Pato Fu (Fernanda Takai) fizeram uma versão em 2001.
Uma espécie de rock brasileiro. Boa onda!



Pato Fu - Ando Meio Desligado (1970-2001)
interessante 
(no interesse de & abertura de possibilidades)
para a Grécia e para a Europa teria sido um sim no referendo.

sobre a Grécia e a Síria e os nossos quartos é tudo o que tenho a dizer

A gente é construção e não adianta fingir. A gente está aqui neste lugar lindo, com pessoas lindas, incríveis, mas o mundo está todo arrebentado. Aqui, na Europa, na Síria, nos nossos quartos, está tudo difícil.
A poesia, a música, uma pintura não salvam o mundo. Mas salvam o minuto. Isso é suficiente. A gente está aqui para dançar um pouquinho sobre os escombros. Não deixar que a poeira dê alergia nos olhos.
Cada um faz como pode. O cirurgião vai tentar salvar todas as vidas que puder. A gente vai tentando salvar os segundinhos — da minha vida, da vida de todos meus amigos e de alguém que lê uma estrofe. E já é bom.
Matilde Campilho, na Festa Literária Internacional de Paraty 

epá, não é preciso gritar!

Dominique A - Nouvelles Vagues [2015]

je ne t'apporterai que des nouvelles vagues
comme d'un autre pays
d'une autre saison
sans que tu le demandes
j'annulerai certains noms

o dia de ontem teve mais um segundo, júpiter e vénus confundem-se (será que andam para trás?), e a lua não poderia estar mais eloquente.
julho começa com aquele odor da terra molhada pela chuva a entrar-me pela janela. e com banhos de mangueira.

[nota: este teaser não implicou o sacrifício de animais... talvez]

Father John Misty - The Suburbs [2015 - Arcade Fire]